31 janeiro 2013

destruir/criar


destruir

passo os dias inteiros a sorrir ou a tentar sorrir
quando só consigo sentir uma árvore de ódio 
a crescer em mim, as raízes a descer do coração
aos pés, entrando na terra que me rodeia tornando-a
tão estéril quanto eu sou e sempre fui. onde toco
a vida apodrece, os sorrisos morrem, a pele perde
a sua juventude e fica amarela como a dos velhos.
é este o meu dom - destruir tudo o que toco. odeio
o próprio sangue desta confusão, a minha depressão
de tudo que não passa, as entregas estúpidas 
e as mais estúpidas tentativas de lhes encontrar 
sentido. odeio as horas desperdiçadas no trabalho
e a trabalhar quando podia estar a viver melhor
e a não me preocupar com nada, excepto os impostos,
a burocracia da vida, o preço por ser cidadão pleno
da ilusão de primeiro mundo. odeio estas palavras 
falsas e inúteis, que dizem tudo e não explicam nada
do que realmente acontece. odeio este ódio, 
a incompreensão e o sabor dos sexos amargurados,
o falhanço de querer ser mais e não chegar a ser nada.


criar

por isso digo é preciso destruir tudo o que o passado trouxe.
por isso digo que é preciso fuzilar todas as memórias, tudo
o que os dias nos deram para sermos felizes sendo quem somos.
por isso digo que preciso de me ser outro. esquecer-me de mim
todos os dias, todas as horas. deixar respirar as horas em mim
e pensar na sande que me espera quando chegar a casa, no vinho
quente que acompanha a refeição simples, no fumo depois do jantar
e o banho a escaldar antes da calma do meu sono, sozinho, porque
afinal é assim que nos ensinam a existir desde cedo e porque nada 
vale mesmo a pena, excepto existir para mais outro dia sem pensar
em nada, sem sabermos mesmo quem somos ou nos interessarmos
minimamente por isso. talvez um dia, assim reinventado o mundo
num turbilhão de novidade inesgotável, seja minimamente confortável
e até divertido acordar à mesma hora, todos os dias, para o resto da vida.

30 janeiro 2013

Não se passa nada


os cães ladram e não se passa nada:
o arco desta travessa arqueia ainda,
o rio corre como um esgoto bucólico,
a mesma luz na janela fechada. 
o telefone não vai tocar hoje. nenhuma
voz vai atravessar este vazio. os ecos
que me chegam não trazem nada bom: 
as paredes dizem que o presente esgota
placidamente as suas horas e relatam
confusões profundas dentro do interior
da minha cabeça calculadora negativa.
entretanto mais um dia escorre na torneira
e eu escrevo novamente na cozinha, 
costas para a janela doente, e sempre
o cigarro estúpido a queimar as horas 
a pensar sempre o mesmo: ninguém nos vê. 
não existimos. os espelhos não conseguem 
devolver aquilo que nunca possuiram.

os cães calam-se subitamente.

alguém desliga a luz.

não se passa nada.

An almost made up poem

I see you drinking at a fountain with tiny
blue hands, no, your hands are not tiny
they are small, and the fountain is in France
where you wrote me that last letter and
I answered and never heard from you again.
you used to write insane poems about
ANGELS AND GOD, all in upper case, and you
knew famous artists and most of them
were your lovers, and I wrote back, it’s all right,
go ahead, enter their lives, I’m not jealous
because we’ve never met. we got close once in
New Orleans, one half block, but never met, never
touched. so you went with the famous and wrote
about the famous, and, of course, what you found out
is that the famous are worried about
their fame –– not the beautiful young girl in bed
with them, who gives them that, and then awakens
in the morning to write upper case poems about
ANGELS AND GOD. we know God is dead, they’ve told
us, but listening to you I wasn’t sure. maybe
it was the upper case. you were one of the
best female poets and I told the publishers,
editors, “her, print her, she’s mad but she’s
magic. there’s no lie in her fire.” I loved you
like a man loves a woman he never touches, only
writes to, keeps little photographs of. I would have
loved you more if I had sat in a small room rolling a
cigarette and listened to you piss in the bathroom,
but that didn’t happen. your letters got sadder.
your lovers betrayed you. kid, I wrote back, all
lovers betray. it didn’t help. you said
you had a crying bench and it was by a bridge and
the bridge was over a river and you sat on the crying
bench every night and wept for the lovers who had
hurt and forgotten you. I wrote back but never
heard again. a friend wrote me of your suicide
3 or 4 months after it happened. if I had met you
I would probably have been unfair to you or you
to me. it was best like this.


Charles Bukowski

29 janeiro 2013

Noite incendiada

não sou poeta nem escrevo poemas.
duvido mesmo que seja um homem,
se homem se pode chamar à carne
desta fractura constante. perco o ser
diariamente, navio sem âncoras e portos
esquecidos marcados no casco. escolho 
palavras que não são palavras (mas
antes espelhos onde o leitor encontra
uma outra face que é também a sua)
para me relembrar como era a certeza
absoluta de tudo - mãos no leme tacteando
um rumo, um sentido para a viagem 
e para o esquecimento. não, não sou 
um poeta, ainda menos um homem.
o meu valor é incendiar a noite escura,
o silêncio do corpo, o vazio preenchido.


28 janeiro 2013

Lugar vazio


a mesa do fotógrafo tem um portátil e tabaco velho;
um isqueiro, uvas e um telemóvel inútil. papéis.
tem silêncio
e dois lugares. 

um está sempre vazio

Nuvem negra


é sempre o mesmo deserto como paisagem de fundo.
o ruído ram-ram das rodas raspando continuamente
a gravilha do caminho. o sem-fim da paisagem-roda
retro-iluminada, como os desenhos animados onde
ninguém fala e o fundo é repetitivo e se agita perante
as personagens imóveis, repetição de loucura, loucura
repetida acorde após acorde a olhar as cores do som.
é uma experiência e mais uma tarde de domingo onde 
se passa o tempo esgotando a melancolia da semana. 
a imaginação chega pouco, mas tem de servir: recordar
como seria de novo respirar sem esta pressão no peito; 
sem este chumbo derretido desabado dentro da carcaça.
esperei até ser tarde demais para chegar cedo a casa.
a mais outra. casa. a paisagem agora é negra, pontuada 
por luzes e névoa fria da estrada. viajo depois da meia-noite: 
ninguém olha já os rostos com quem se cruza. estações
de serviço meias vazias e com aquela tristeza que se cola
às cores berrantes, à mecânica metálica, aos rostos aquários.
é apenas mais uma viagem, mais umas horas de mediação
entre a distância que me leva daqui até outro lado qualquer.

26 janeiro 2013

Incapaz


não, não me apetece ir a lado nenhum
ou fazer nada. não, não quero compreender
melhor o que me rodeia ou fazer algo 
diferente. 
quero ficar em casa, em silêncio, sozinho
sem música ou o calor das mãos de alguém
fora de mim. ontem explicaram-me sonhos
e um futuro incerto onde não havia lugar
para mim e para as minhas imperfeições.
quando sair daqui tem de ser para uma coisa
em grande. uma casa e um homem maior que
eu, mais capaz de suportar as rotinas, mais
completo e profundo no trabalho e em privado,
capaz de falar e explicar a bela profundidade 
dos seus bolsos e como é incapaz de sentir.

Puro pensamento

Sou puro pensamento impuro.
Sou uma mesa cheia de pratos
sujos e colheres vazias. Uma
cadeira partida e uma toalha
suja. Sou. Uma garrafa meio
de bebeda junto a mais um
euromilhões amarrotado. Puro
pensamento e desilusões. Falta
de sorte e estou aqui calado
e desatento como quem observa.
Para passar o tempo, outros colam
papéis brancos às paredes tentando
reter fugazes memórias, breves ícones
das vozes interiores que nos guiam
e de dias e noites passados sem termo.
Mas até as paredes vão ruir um dia
e, quando temos todo o peso dos factos
como uma engenharia falhada sobre nós
recordar é um exercício difícil e irrespirável.

24 janeiro 2013

Sentença


nada disto é real. são apenas continuações 
dos nossos ódios e medos. nada disto é real.
é um sonho, apenas. um momento de pesadelo
na noite suada, nos olhos abertos de madrugada
para conferir o relógio da insónia. nada disto é real.
falas como quem mente como quem respira. existes?
nada disto é real. ainda assim, as horas continuam,
fortunas frágeis atravessam as minhas mãos, explicam
forçosamente as cadeias de produção do mundo,
do terceiro para o primeiro e o valor acrescentado da viagem...
acima de tudo, é uma questão de etiqueta. de veracidade.
mas nada disto é real. são apenas nomes que são dados
às coisas, às pessoas. nada do que dizes é uma promessa.
nenhuma palavra revela. os signos não são mensagens 
e nunca, nunca te dás de olhos fechados como disseste
sempre que querias que fosse o amor e a vida: um abismo
de carne ou sensações; uma multitude de inteligências
e horas desencontradas onde nos encontrassem os corpos.
os dias continuam e nenhum milagre político ou humano
nos poderão salvar. as horas prolongam-se, estendem-se
os silêncios como lençóis onde passamos mais uma noite,
descobertos e nus, preparando os corpos e as mentes 
para dar descontar mais um dia a esta nossa sentença.

20 janeiro 2013

La cerradura del amor

Soluciona la noche con monedas:
pagas así la cama.
Mas aquello por lo que tanto dieras
(o quizás dieras poco):
la promesa del cielo (que es lo eterno)
o esta vida final (el desengaño),
por el amor lo dieras casi todo.
Mas si lo ves venir aguarda altivo
porque el don que te llega lo mereces.
No le opongas dureza, mas que llame
a la puerta cerrada. No te fíes
de la belleza de un semblante joven,
y escruta su mirada con la tuya;
ayude la experiencia de los años
para tocar el alma. Si algo sabes
debe servirte mucho en esas horas.
Puede que, a quien esperas, le despidas,
y te quedes más solo.
Mas el amor no pagues con monedas,
no mendigues aquello que mereces.



- Francisco Brines
in Poesia completa, Tusquets 

deste blog 

18 janeiro 2013

Qual house



que house, seja ela a música ou a casa
onde se regressa no final do dia
ou de mais outra semana; qual house
é aquela onde vivemos; quem somos
ou o que somos escondidos atrás de vidros
e espelhos, por vezes de palavras em longos
invernos da mente. qual house escutar
profundamente
quando nem vozes, nem telefones
nem nada
nos aproximam dos outros, excepto a noção
nossa dos outros na existência quotidiana
- e como odeio a palavra quotidiana, marca
de nojo e de rigor horário, de rotina podre
como uma lama que nos prende os pés.
qual house, a música que ecoa pelas ruas
entre casas fechadas e portões abertos,
entre casas mortas e casas prontas a habitar,
apagando o rasto dos esqueletos que riscaram
nas paredes uma outra existência tão breve
e semelhante à nossa. qual house é que é uma
feita carne, feita calor, feita hospitalidade de sangue
no fim de cada dia, breve como uma voz sobre
uma linha satélite, orbitando em volta de vontades
passageiras da nossa passagem. qual house esta
desta porta e deste portão riscados, assassinados
se para isso houvesse um espaço melhor e mais vida.
sem dúvida uma boa questão.
e ainda melhor a resposta construída sem palavras
nem perguntas nem afirmações retóricas:

pedra seca apesar da chuva - e das dúvidas.

17 janeiro 2013

Retrato

Retrato, 2013

os retratos raramente mostram quem é fotografado. o rosto, a representação apenas está lá por acidente. é uma desculpa para fazer. ou para melhorar quem se retrata. ou para oferecer uma racionalização das impressões que as pessoas nos provocam. acima de tudo, um retrato deve fazer-nos perguntar: quem será que existe fora desta imagem que tenho perante mim?

já que nunca conseguimos enfrentar as pessoas, conhecer alguém, entrar numa comunhão possível e visual com o que as pessoas são, escolhemos o retrato. uma reprodução mecânica para nos libertar das ambiguidades humanas, das limitações dos nossos sentidos e razão. e assim acabamos por mostrar mais quem somos, do que as pessoas que retratamos. não sei se me faço entender, mas este retrato não é diferente. mostra mais de mim do que um retrato meu - já que nunca conseguimos mesmo estar na mesma folha que as nossas representações.

este é o retrato do desconhecimento e da fuga.

15 janeiro 2013

14 janeiro 2013

Um igual a mil

Nem vivo, nem morto:
Um corpo intermédio
na longa distância da viagem.

02 janeiro 2013

corpo estranho

imaginar um corpo estranho e sentir asco
pelo corpo e tudo o que ele representa
- o que me aconteceu?