29 janeiro 2012

Música feita luz




o visualizador é mais que simples
forma orgânica de ver a música. é
um fenómeno místico. exploração
do espaço, entendimento molecular,
taça onde se pode espreitar o futuro,
a separação das galáxias e a nossa
solidão inteligente no meio de tudo.

26 janeiro 2012

Para empurrar o vazio para longe


já que nos deram um número, uma fé,
uma cultura, pedaços desarticulados
de ferro chamados sonhos e outras 
deficiências várias que nos impedem 
o entendimento, sejamos honestos: 
bebamos vinho e tudo o mais necessário 
para empurrar
                             o vazio 
para longe.

23 janeiro 2012

Escrever

escrever é um acto pessoal.
quem não gostar, que olhe
- noutra direcção.

Pormenores


enquanto nos entretemos a racionalizar
a dor, os nossos entendimentos separados,
os nossos imensos egoísmos, a vida real 
passa-nos ao lado. somos o que somos.
é isto. apenas. com as nossas loucuras
e entregas que não são o que são. são
sempre outra coisa noutros olhos. 
queremos o mundo para nós. o nosso 
fica sempre nas nossas mãos, nunca 
se entrega. a batalha que travamos 
nunca é pela compreensão: procuramos
alguém que se renda a nós, que nos 
persiga a ilusão da nossa solidão 
sem esperar nada em troca. e depois
partimos, sempre, sem mais uma palavra.

a beleza para mim não é nada. 
a macro dos meus olhos é um bisturi 
com que separo a realidade daquilo
que efectivamente é. pormenores soltos,
sem qualquer relação com o corpo
a que pertencem. uma pele. um lábio.
uns olhos. aquela forma particular de ser.
pessoas cubistas, formadas à imagem
das imagens que projectam, escondidas
atrás dos gestos. o mundo dos meus olhos, 
mais completo em cada pormenor, melhor
do que a própria forma como se olham
a si mesmas ao espelho. beleza é uma 
palavra. um conceito abstracto. uma coisa
pouco importante que se preza e se perde. 

nunca me deram nada. mulheres acomodadas
com quem eu me liguei entregaram o corpo,
meia dúzia de horas, o calor de uma cama
e de meia dúzia de gestos gastos com outros 
antes de mim. conversas vazias em que me 
contam os amantes, o prazer, o passado inútil, 
como foi bom sentir que eles me queriam.
chamam a isto sofisticação. ser moderno. 
ver o mundo da perspectiva do umbigo 
e chamar-lhe meio-termo. esperar tudo sem 
dar nada. chegar ao amor como a uma religião:
rastejando, cheio de humildade, sem sequer 
uma lembrança do que foi ter amor-próprio.
esperar. esperar que um dia haja tempo 
e vontade para oferecerem o mesmo 
que exigem. olho o futuro ao lado de alguém
e vejo uma planície branca. sem fim. nada.

20 janeiro 2012

Escrever para


escrevo para não ficar estúpido de todo.
para fugir a horas de silêncio televisivo.
as palavras são o que me ligam. são 
o que me torna pessoal e único. palavras
sou. contínuo. uno. multiplo. confuso.
demasiado excitado pela vida e pelo prazer.
exilado voluntário. procuro um lugar. 
construo. destruo. 
passo por cima de tudo. não sinto. uso.
abuso de mim. esforço-me. sou. não.
incomunicável. experiência. erro. 
constante tentativa. desconhecido. 
frases de espelhos. palavras como nós
em cordéis perdidos em gavetas. maturidade.
o que é isto? são palavras. como muletas
da minha incompreensão das coisas. como 
fogos fátuos de outro que só existe aqui, 
entre a espada e a parede do papel/significado.
continuidade de mim, reencontro com o que perdi,
processo de comunicação difícil e impossível.
escrevo para isto - para continuar a ser. para 
poder recriar-me à minha imagem. reencontrar,
enfim, alguém melhor dentro de mim para lembrar.
escrevo para continuar a pensar. para ser. melhor.

Escapando


não é de carro que vamos escapar.
é inverno todos os dias e chove, 
está frio. as escovas do limpa-vidros
marcam o ritmo do silêncio. passeamos
pelo litoral desolado. estradas em obras, 
casas fechadas. poucos carros a arriscar
o paralelo incerto. uma bomba de gasolina,
ao longe, apertada entre casas, ainda. 
a carne por demais presente sob as palavras:
está a chover cada vez mais.
não sei o que foi feito das pessoas.
parece que não vive aqui ninguém.
tenho de ter cuidado para não chegar tarde.
alguma vez partimos para algum lado?
qual é esta preocupação constante com o chegar
se nunca partimos? nunca levamos a nada.
trocamos de cara, trocamos os tons da voz, 
continuamos os mesmos por dentro. 
só noite à frente. uma língua de alcatrão.
as costas do desejo. o seu reverso solitário.
a culpa por ser demais humano, animal demais.
as cordas dos barcos apodrecem, neste mar
que circum-navegamos entediados, civilizados,
sob horários rígidos - os mesmos de sempre.
não é de carro que se consegue escapar. 
de avião, talvez, se as circunstâncias deixarem.

12 janeiro 2012

não durmo há dois dias. não consigo. não tenho sono. 
contemplo a morte e a doença de quem amo e aprendi
a compreender. susurram-me dúvidas e medos de dias.
entre isto e a realidade há um deserto que só eu atravesso. 



09 janeiro 2012

Corpo de chuva


partilhamos uma música demasiado breve.
sem dúvida, minha querida, fomos a chuva 
      a que o teu corpo sabia.

Miragem


à pergunta quem sou apenas posso responder:
um intruso. sempre. apenas. sem lugar. um 
aluguer febril de respiração e espaço. penso,
mas não existo. não sei o que é ter vontade.
não me consigo exprimir, chegar às pessoas
que me rodeiam como máscaras estranhas 
que não entendo. são poucos aqueles com 
quem ainda consigo conversar. trocar ideias,
vagas como o mar que se desaba sobre mim.
sou outra vez uma criança e rolo sob as ondas,
confuso nos seixos, maltratado pelas rochas.
agora, nenhuma mão entra na água para agarrar
os meus braços soltos. não consigo flutuar. respiro
pelas mãos, quase que alcanço o sol. nenhum som
e a boca está aberta. o bruaaaaaaaa atroador das
ondas, os carros do outro lado da parede, paralelos,
existência no granito, na matéria negra do petróleo.
ninguém sabe o código, a mensagem é uma miragem.

06 janeiro 2012

Segue o teu caminho


Segue o teu caminho,
faz as tuas férias,
ama as tuas coisas.
O resto são memórias
de mundos alheios.

A realidade palpável
é sempre muito menos
do que desejamos. 
Mesmo nós somos 
muitas vezes menos 
do que queríamos ser.

Suave é estar só. Talvez
encontrar alguém que 
viva os mesmos sonhos 
e tenha a mesma carteira
para os cumprir. Deixar 
a dor sobre mesas e camas
de hotel como um ex-voto
aos deuses abandonados.

Vê a vida ao longe. 
Não te aproximes. 
Ela já não tem nada 
para te dizer. Os deuses 
já não te falam como dantes.

Serenamente, entedia-te
no Olimpo gelado e asséptico
do teu coração cheio de ruínas 
e pedestais caídos. Os deuses
são deuses enquanto não pensam.


(como é mais que óbvio, esta é uma adaptação bastante livre do poema de Ricardo Reis. a ideia era exactamente pegar nesse texto, e no sub-texto, e transformá-lo em algo que fosse representativo de pulsões mais contemporâneas, esvaziando-o do abandono material, da entrega à natureza e da confiança no panteão divino, que alguém ou algo cuida de nós.)

Classificados


Procura-se:

mulher com coração certo, constante. com energia 
para respirar a madrugada. com olhos abertos 
pela mesma insónia. com vontade de procurar
algo mais que o óbvio do mundo IKEA e promoções
de agências de viagens para destinos paradisíacos.
se ainda houver alguém interessado nas coisas simples
contacte o 914072833 para conversa e café numa esplanada.

05 janeiro 2012

Perdidos


quando um dia se abre os olhos e sabemos que nos encontramos
perdidos, a estrada conduz sempre na mesma direcção: 
em frente - por um caminho difícil.

Desculpas ao mundo


o zé responde a tudo como se fosse a gozar
e não sou a única a queixar-me do mesmo. 

desde já as minhas desculpas ao mundo 
por ser o oposto do que aparento. apesar 
daquilo a que chamo vida estar em ruínas, 
tenho muita pouca tristeza em mim e quase 
tudo me dá vontade de rir, porque o mundo
é de uma ironia inultrapassável. deus, para 
mim o acaso, é bem pior que eu. qualquer 
pessoa séria é incapaz de dizer o contrário.
de cara séria, as pessoas esperavam que fosse 
como todos os adultos: responsável, frio, sério
(sempre ou pelo menos quando achassem
conveniente), com vontade de construir algo
que não imagens de nada, imagens condenadas
a desaparecer num vago registo do presente.
para além de ti, minha amiga, gostaria de saber
quem se queixa do humor, do meu humor, 
desta tábua de salvação para os náufragos
da existência, caranguejos do fundo do subúrbio, 
dos significados profundos trocados sem palavras,
capazes de se rir com tudo sem deixar de sentir a dor 
das coisas importantes e, acima de tudo, os únicos
que ainda se lembram que a merda da vida se enfrenta
sozinho, de coração aberto e com um sorriso nos lábios.


(PS- só para que fique assente e compreendido, a minha mãe
e ex-namoradas achavam uma piada flutuante às minhas atitudes, 
mas sempre me compreenderam e respeitaram o suficiente para saber
que sempre me importei com elas.)

Danos colaterais


hoje, alguém dorme ao meu lado. eu escrevo, sentado na escuridão.
é suposto isto significar algo, mas não sei dizer o quê. pressiono 
teclas lisas que murmuram as pausas com que penso, onde tento 
encontrar o fio desta viagem, para onde vou agora. dormir na sala
de minha casa, um sofá emprestado e a cabeça pesada. pulmões
presos de fumo. repiso os mesmos passos de sempre. dias curtos
e demasiadas dores de cabeça, cansaços. como passear assim 
tão pausadamente pelas coisas da vida? passamos os dias 
a olhar mortos a andar à nossa volta. nas ruas, nas televisões, 
à nossa volta com a impressão de que eles  são mais reais 
do que nós, que o calor daquela perna ainda vestida 
junto às minhas costas - ou dessa que vocês afastam do vosso colo
para caminharem até à cozinha, para se afastarem um pouco 
da invisível tenaz que se aperta, como vos ensinaram, na garganta. 
dizem que este é o ano das resoluções, das tensões. o fim-do-mundo
maia. previsões e medos. continuidade. amargo aqui, junto ao atlântico. 
demasiado sal enquanto comemos para afastar a morte. esforços 
sobre-humanos de coração - uma raça enquanto problema cardíaco.
temos falta de ar. esquecemos como respirar. já ninguém sabe como falar. 
o que dizer. confusos entre publicidades sem espaço para sinceridades 
ou enumerações de qualidades. falamos, sim, ainda, para nos escutarmos
a dizer o que dizemos. falamos como expressão do nosso egoísmo, 
dos desejos burgueses dominados à força numa vontade de contra-cultura, 
numa vontade de nos tornarmos iguais a todos os outros por oposição. 
como resolver a vida? pensamos enquanto passeamos por esplanadas
ou países estrangeiros, procurando fugir do que somos realmente:
o emprego anónimo, o sucesso relativo, a monotonia abismal 
de um futuro que se constrói em silêncio, num cubículo de 8 horas, 
de onde depois se pode escapar aperfeiçoando o corpo, aparente,
sem nunca se alterar quem se é por dentro. apenas revelando
quem tentamos esconder sempre debaixo das acções. e depois é isto:
penso em amigos e há línguas que se iluminam como facas; 
penso em amigos e há poemas que se transformam em merda, 
personificações de mim a seus olhos tristes e panucas; 
penso em amigos e recordo noites de bares, abrigos em casa
e palavras de despedida, insinuantes e bífidas, sobre mulheres amadas;
penso em amigos e tenho também uns poucos pontos no mundo 
onde sei que seria recebido com um sorriso, em casa, sem perguntas.  
e entretanto, enquanto faço planos para o futuro, a vida continua 
a acontecer à minha volta. pessoas dormem. pessoas acordam.
mortos apreciam mortos, vivem todos a sua vida calma e plácida
de animais saciados. marcam emigrações sazonais para destinos 
da moda ou para onde os conduz o coração para o romance.   
é este o jarro de vidro de onde espreito para fora, sem intuir a realidade
daquela distorção, sem compreender que ao contrário do que digo, 
os meus olhos e mãos não são a medida para todas as coisas. 

04 janeiro 2012

Como um homem


amas como um homem. como eu. sem beijos ou carinho
desnecessário. concentras o sangue onde interessa.
o cérebro na mitomania dos sentidos, concentrado,
focado no prazer ampliado, no egoísmo profundo 
do prazer. amas como um homem, sem arte, rude
ao ponto do carinho, num caminho que leva apenas 
ao esquecimento que há mais à frente no caminho.

03 janeiro 2012

Pitch me


primeiro dia do ano, antigas vozes partidas,
elos quebrados, dia a nascer, incompreensível.
pessoas nas ruas, soltas e inconsequentes. 
é feriado. dia 1. quase tudo fechado ainda.
demasiado cedo. demasiado acelerado 
para pensar em descansar. demasiado 
sozinho para ter pressa em chegar 
a outro lado que não o aqui e o agora.
primeiro dia do ano, ainda escuro, passei
a noite a dançar, confuso, sem pensar.
uns minutos de descanso, breves, de mim.
uns minutos de liberdade dentro de fronteiras
estabelecidas. uns minutos de liberdade
porque tinha dinheiro para me libertar, breve.
os rostos todos como se as linhas do reconhecimento
tivessem sido lavadas pela chuva, pela bebida
e agora fossem apenas uns traços sujos e leves.
não sei onde estão todos. subi ao andar de cima 
para ver como estava o ambiente e vi-me 
rodeado de camisas brancas, grandes e profusas
melenas, meninas demasiado maquilhadas e
cambaleantes, embaladas em braços que levam
a explorações breves no andar de baixo, pista de dança,
um pouco de seio visível ali, no canto da sala,
quando cai a luz roxa. ali não era para mim: festa feia
de quem faz as coisas dentro do que é esperado,
peças de roupa azul, lenços, tacões demasiado altos.
alguém tinha vomitado na escada - um casal beijava-se
ao lado do vómito como se não sentisse nada,
nenhum cheiro no ar e, simultaneamente, ultrapassado 
nos degraus, um gajo de sapato e blazer azul escorrega
e quase cai em cima de tudo aquilo, limpando amantes,
limpando escadas, limpando tudo menos a sensação 
suja de estar aqui e fazer parte disto. e sempre a batida
hedonista à minha medida, sala às escuras, luzes rápidas
- ISO 1600 não serve aqui. não vejo nada. se puxo mais
por isto as imagens vão ficar cheias de ruído. pedra.
não vejo nada. resta-me dançar. abanar o esqueleto.
rir como quem já perdeu tudo. a gaja do balcão, morena
com cara de cavalo, blusa de seda, calção
de cabedal com cintura subida, corpo bem feito
e cheia de tédio de tudo aquilo - o mau-gosto de 
toda ela, algures entre o vintage e o chique,
manequim usado, tristeza cinzenta e bolorenta.
mitrou-me as bebidas. fez-me um gin tónico mecânico,
atirado para cima do balcão como quem atira comida
para o chão, para os pobres. tive mais sorte com o gajo.
no cartão um fino, na mão e no ar um gin… batida. 
e o que será que isto quer dizer? voltar lá, falar com ele.
ver se a sorte dura. pedra. corações como pedra. escondem-se 
todos aqui, no escuro, e procuram outros iguais. divertem-se. 
esquecem. raparigas de mini-saia caem na pista, tontas, 
epilépticas. o homem ri-se. pessoas apontam. a música não pára.
no rosto dela só se consegue ler uma surpresa atarantada.
sabe onde está? com quem está? a música não pára.
movemo-nos. o corpo agita-se. chamam a isto dançar. 
não me sinto ligado a ninguém. mexo-me. a batida 
fala comigo. sinto-me solto. gostava de ter alguém.
para já. para isto. um par de olhos onde confiar. 
uma flor de carne. contar esta dor no peito, esta vaga
noção de que me esqueci de quase tudo o que sei.
um corpo para possuir sem fronteiras. ser todo eu 
em 17 centímetros de carne e saliva. desaparecer.
vir-me. chegar a algum lado, a alguém que não existe.
olhares cruzados sem nunca se encontrarem. esgrimistas
habéis no ataque. fatos brancos de mentiras e enganos
pequenos. um ano novo. não compreendo o que é.
365 dias para gastar. 2012. odisseia na crise. medo.
o futuro foi substituído. não existe. somos mesquinhos
e ferimos os próximos. não acreditamos mais. vemos
as coisas à medida das nossas dores. egoísmos.
não sabemos quem somos. o cansaço de tudo isto ajuda: 
estamos cansados de estar tristes; estamos cansados 
da alegria e da solidão também. já não nos queremos
divertir ou confiar - queremos esquecer, fazer o mundo
à nossa medida, à medida do que julgamos merecer. ficar
cansado. sei que vou acabar por ir sozinho para casa. 
não consigo falar com ninguém. só me solto em mim, para mim.
a noite está a chegar ao fim. volta a realidade. volta 
a chuva. as memórias encarregam-se de nos deixar tristes.
as caras, sempre cansadas, regressam às rotinas das culpas.
não tenho nada. é o que mais ouvimos. cansaço. sono. desculpas.
para além disto, o que são as pessoas capazes de dar hoje em dia?

agora sentado na sala, desolado primeiro dia do ano, ouvidos
a zunir de uma noite inteira de música e zen de divertimento, 
demasiado cansado agora para pensar claramente 
no alinhamento destas palavras, espero que chegue alguém 
cujas horas coincidam com as minhas e me consiga dizer 
com precisão o que aconteceu quando eu não estava a olhar.