primeiro dia do ano, antigas vozes partidas,
elos quebrados, dia a nascer, incompreensível.
pessoas nas ruas, soltas e inconsequentes.
é feriado. dia 1. quase tudo fechado ainda.
demasiado cedo. demasiado acelerado
para pensar em descansar. demasiado
sozinho para ter pressa em chegar
a outro lado que não o aqui e o agora.
primeiro dia do ano, ainda escuro, passei
a noite a dançar, confuso, sem pensar.
uns minutos de descanso, breves, de mim.
uns minutos de liberdade dentro de fronteiras
estabelecidas. uns minutos de liberdade
porque tinha dinheiro para me libertar, breve.
os rostos todos como se as linhas do reconhecimento
tivessem sido lavadas pela chuva, pela bebida
e agora fossem apenas uns traços sujos e leves.
não sei onde estão todos. subi ao andar de cima
para ver como estava o ambiente e vi-me
rodeado de camisas brancas, grandes e profusas
melenas, meninas demasiado maquilhadas e
cambaleantes, embaladas em braços que levam
a explorações breves no andar de baixo, pista de dança,
um pouco de seio visível ali, no canto da sala,
quando cai a luz roxa. ali não era para mim: festa feia
de quem faz as coisas dentro do que é esperado,
peças de roupa azul, lenços, tacões demasiado altos.
alguém tinha vomitado na escada - um casal beijava-se
ao lado do vómito como se não sentisse nada,
nenhum cheiro no ar e, simultaneamente, ultrapassado
nos degraus, um gajo de sapato e blazer azul escorrega
e quase cai em cima de tudo aquilo, limpando amantes,
limpando escadas, limpando tudo menos a sensação
suja de estar aqui e fazer parte disto. e sempre a batida
hedonista à minha medida, sala às escuras, luzes rápidas
- ISO 1600 não serve aqui. não vejo nada. se puxo mais
por isto as imagens vão ficar cheias de ruído. pedra.
não vejo nada. resta-me dançar. abanar o esqueleto.
rir como quem já perdeu tudo. a gaja do balcão, morena
com cara de cavalo, blusa de seda, calção
de cabedal com cintura subida, corpo bem feito
e cheia de tédio de tudo aquilo - o mau-gosto de
toda ela, algures entre o vintage e o chique,
manequim usado, tristeza cinzenta e bolorenta.
mitrou-me as bebidas. fez-me um gin tónico mecânico,
atirado para cima do balcão como quem atira comida
para o chão, para os pobres. tive mais sorte com o gajo.
no cartão um fino, na mão e no ar um gin… batida.
e o que será que isto quer dizer? voltar lá, falar com ele.
ver se a sorte dura. pedra. corações como pedra. escondem-se
todos aqui, no escuro, e procuram outros iguais. divertem-se.
esquecem. raparigas de mini-saia caem na pista, tontas,
epilépticas. o homem ri-se. pessoas apontam. a música não pára.
no rosto dela só se consegue ler uma surpresa atarantada.
sabe onde está? com quem está? a música não pára.
movemo-nos. o corpo agita-se. chamam a isto dançar.
não me sinto ligado a ninguém. mexo-me. a batida
fala comigo. sinto-me solto. gostava de ter alguém.
para já. para isto. um par de olhos onde confiar.
uma flor de carne. contar esta dor no peito, esta vaga
noção de que me esqueci de quase tudo o que sei.
um corpo para possuir sem fronteiras. ser todo eu
em 17 centímetros de carne e saliva. desaparecer.
vir-me. chegar a algum lado, a alguém que não existe.
olhares cruzados sem nunca se encontrarem. esgrimistas
habéis no ataque. fatos brancos de mentiras e enganos
pequenos. um ano novo. não compreendo o que é.
365 dias para gastar. 2012. odisseia na crise. medo.
o futuro foi substituído. não existe. somos mesquinhos
e ferimos os próximos. não acreditamos mais. vemos
as coisas à medida das nossas dores. egoísmos.
não sabemos quem somos. o cansaço de tudo isto ajuda:
estamos cansados de estar tristes; estamos cansados
da alegria e da solidão também. já não nos queremos
divertir ou confiar - queremos esquecer, fazer o mundo
à nossa medida, à medida do que julgamos merecer. ficar
cansado. sei que vou acabar por ir sozinho para casa.
não consigo falar com ninguém. só me solto em mim, para mim.
a noite está a chegar ao fim. volta a realidade. volta
a chuva. as memórias encarregam-se de nos deixar tristes.
as caras, sempre cansadas, regressam às rotinas das culpas.
não tenho nada. é o que mais ouvimos. cansaço. sono. desculpas.
para além disto, o que são as pessoas capazes de dar hoje em dia?
agora sentado na sala, desolado primeiro dia do ano, ouvidos
a zunir de uma noite inteira de música e zen de divertimento,
demasiado cansado agora para pensar claramente
no alinhamento destas palavras, espero que chegue alguém
cujas horas coincidam com as minhas e me consiga dizer
com precisão o que aconteceu quando eu não estava a olhar.