05 Janeiro 2012

Danos colaterais


hoje, alguém dorme ao meu lado. eu escrevo, sentado na escuridão.
é suposto isto significar algo, mas não sei dizer o quê. pressiono 
teclas lisas que murmuram as pausas com que penso, onde tento 
encontrar o fio desta viagem, para onde vou agora. dormir na sala
de minha casa, um sofá emprestado e a cabeça pesada. pulmões
presos de fumo. repiso os mesmos passos de sempre. dias curtos
e demasiadas dores de cabeça, cansaços. como passear assim 
tão pausadamente pelas coisas da vida? passamos os dias 
a olhar mortos a andar à nossa volta. nas ruas, nas televisões, 
à nossa volta com a impressão de que eles  são mais reais 
do que nós, que o calor daquela perna ainda vestida 
junto às minhas costas - ou dessa que vocês afastam do vosso colo
para caminharem até à cozinha, para se afastarem um pouco 
da invisível tenaz que se aperta, como vos ensinaram, na garganta. 
dizem que este é o ano das resoluções, das tensões. o fim-do-mundo
maia. previsões e medos. continuidade. amargo aqui, junto ao atlântico. 
demasiado sal enquanto comemos para afastar a morte. esforços 
sobre-humanos de coração - uma raça enquanto problema cardíaco.
temos falta de ar. esquecemos como respirar. já ninguém sabe como falar. 
o que dizer. confusos entre publicidades sem espaço para sinceridades 
ou enumerações de qualidades. falamos, sim, ainda, para nos escutarmos
a dizer o que dizemos. falamos como expressão do nosso egoísmo, 
dos desejos burgueses dominados à força numa vontade de contra-cultura, 
numa vontade de nos tornarmos iguais a todos os outros por oposição. 
como resolver a vida? pensamos enquanto passeamos por esplanadas
ou países estrangeiros, procurando fugir do que somos realmente:
o emprego anónimo, o sucesso relativo, a monotonia abismal 
de um futuro que se constrói em silêncio, num cubículo de 8 horas, 
de onde depois se pode escapar aperfeiçoando o corpo, aparente,
sem nunca se alterar quem se é por dentro. apenas revelando
quem tentamos esconder sempre debaixo das acções. e depois é isto:
penso em amigos e há línguas que se iluminam como facas; 
penso em amigos e há poemas que se transformam em merda, 
personificações de mim a seus olhos tristes e panucas; 
penso em amigos e recordo noites de bares, abrigos em casa
e palavras de despedida, insinuantes e bífidas, sobre mulheres amadas;
penso em amigos e tenho também uns poucos pontos no mundo 
onde sei que seria recebido com um sorriso, em casa, sem perguntas.  
e entretanto, enquanto faço planos para o futuro, a vida continua 
a acontecer à minha volta. pessoas dormem. pessoas acordam.
mortos apreciam mortos, vivem todos a sua vida calma e plácida
de animais saciados. marcam emigrações sazonais para destinos 
da moda ou para onde os conduz o coração para o romance.   
é este o jarro de vidro de onde espreito para fora, sem intuir a realidade
daquela distorção, sem compreender que ao contrário do que digo, 
os meus olhos e mãos não são a medida para todas as coisas.