20 maio 2014

Poema para um filho morto

Apesar de nunca nos termos visto, 
disseram-me que fui teu pai.
Não tivemos tempo para conversar,
para aprender um com o outro o que 
significa crescer. Não conheceste o cheiro
dos dias de Verão, o perfume da água,
a frescura salvadora dos pinheiros. 
Não saberias sequer compreender 
estas palavras que escrevo para ti 
- ou apenas para acalmar a minha
consciência da tua ausência irreprimível.
Deverias ter nascido em Outubro, dia
desconhecido, abstração de tempo
- espaço desconhecido que te receberia como?
Deverias ter nascido apenas. Conhecido o sol. 
A tua mãe, a única que soube o teu calor,
apertava a barriga como que para te proteger. 
Falava como quem chora uma sentença dada.
Foste breve, mas apesar de tudo foste amado, 
forma breve e incompleta no mundo imperfeito.
Tivesse eu sido outro homem desde sempre
e ter-te-ia abraçado para te ensinar
todo o amor que não consigo compreender
e que perdi ao longo do caminho. Só vejo
quem posso ser. Já não me reconheço 
no espelho nem sei de ninguém à minha volta.
Não tenho espaço para as pessoas reais e 
as representações que delas faço são planas 
e silenciosas como espelhos sem luz.
Só vi a dor de que eras feito. O sangue
e as lágrimas que foram teu único corpo. 
No mundo que te será sempre estranho 
escutam-se os tambores da guerra como
um coração que bate no exterior da caverna.

Agora só me falta conhecer o nome imperfeito

       para tudo isto.

16 maio 2014

Último silêncio

apaguei todas as provas de que alguma vez exististe 
na minha vida. não estás presente agora. és memória
em mim - corpo externo do delito da existência e dos 
planos feitos individualmente e de uma vida esquecida
entre os lençóis dos sonhos. ainda consigo ver o teu 
rosto perfeito sorrindo perfeitamente na paisagem
que se afunda. rosto, corpo, voz - és a única que consigo
lembrar completamente na voragem destas ondas.

debaixo deste calor só há espaço para o futuro.
debaixo destas horas só há tempo para o impossível
         esquecer.
debaixo desta pele só há espaço para o último silêncio

         do adeus.