Apesar de nunca nos termos visto,
disseram-me que fui teu pai.
Não tivemos tempo para conversar,
para aprender um com o outro o que
significa crescer. Não conheceste o cheiro
dos dias de Verão, o perfume da água,
a frescura salvadora dos pinheiros.
Não saberias sequer compreender
estas palavras que escrevo para ti
- ou apenas para acalmar a minha
consciência da tua ausência irreprimível.
Deverias ter nascido em Outubro, dia
desconhecido, abstração de tempo
- espaço desconhecido que te receberia como?
Deverias ter nascido apenas. Conhecido o sol.
A tua mãe, a única que soube o teu calor,
apertava a barriga como que para te proteger.
Falava como quem chora uma sentença dada.
Foste breve, mas apesar de tudo foste amado,
forma breve e incompleta no mundo imperfeito.
Tivesse eu sido outro homem desde sempre
e ter-te-ia abraçado para te ensinar
todo o amor que não consigo compreender
e que perdi ao longo do caminho. Só vejo
quem posso ser. Já não me reconheço
no espelho nem sei de ninguém à minha volta.
Não tenho espaço para as pessoas reais e
as representações que delas faço são planas
e silenciosas como espelhos sem luz.
Só vi a dor de que eras feito. O sangue
e as lágrimas que foram teu único corpo.
No mundo que te será sempre estranho
escutam-se os tambores da guerra como
um coração que bate no exterior da caverna.
Agora só me falta conhecer o nome imperfeito
para tudo isto.