Loira, bebe uma cerveja
ao sol,
do outro lado da praça,
neste fim de tarde cansado
de correr
ruas desinteressantes;
espera, como eu, alguém
tardio, cheio de dúvidas
e fome,
com contactos breves com o mundo.
Mergulho em apneia, rostos
familiares turvados pela água,
certo o sol, apertado o estômago.
Sete da tarde e tenho fome, finalmente.
Dia em jejum à espera do momento
fotográfico, sem erros, elusivo. Ela apoia
o queixo no joelho e olha. Não sou eu
quem ela espera. Olha através de mim.
Escrevo.
Envelhecemos ao sol e esperamos.
Sem sorrir.
A cidade comeu o riso.
Gritos e desconhecidos.
Clic.
Não é esta a foto.
Espero mais um pouco.
Respiro.
Continua a falar e prova
que existe. Agarra o telemóvel,
relembra quem és, que esperas ainda.
Diz coisas sem significado para espantar
a morte, para que te ouçam, te compreendam
como sendo mais
que este corpo
ou
estas horas desperdiçadas
ou
as palavras que contas para adormecer,
para te agarrares ao cabelo da noite
quando falha a respiração.
Clic.
Sem foco. Luz rasante nas árvores de granito.
Sopra um vento
adverso,
inactivo verbo sem esperança.
Respira.
Espera.
Caminha com fome,
experimenta
as contas da ausência.
Ninguém
a quem falar dias a fio,
a voz como ilusão cerebral,
o aperto no coração quando escreves
a impossível coragem de arrasar tudo,
construir de novo,
miragem de fome e sol.
Permaneço
sentado
ainda que diferente,
ainda o mesmo
e esquecido de como escapar de mim.
Agora somos todos pobres e reconhecemos
apenas mãos
vazias como nós,
por dentro.
E das minhas mãos sobe ainda o teu cheiro de pele
à memória - acho que todos o sentem,
mas ninguém pergunta
por ti
ou
por mim
ou
como sinto agora quem sou e como sou.
Diferente. Não tenho o tempo de ninguém.
Fantasma ou presença anónima em espelho
de relógio ausente, sorriso por devolver
na miopia das emoções. Continuo à espera.
Um momento
que nem eu consigo reconhecer,
a cerveja acabou,
os amigos chegaram,
ela já não sabe o que esperar mais.
Clic.
Turistas e línguas estranhas.
Clic.
Velhos cruzam a tarde como navios cansados.
Clic.
Do outro lado da praça já não existe ninguém.
Clic.
Imóveis pessoas perdidas em todas as praças
esperando
também
debaixo de mais um sol
um segundo equilíbrio.