25 fevereiro 2013

Elogio da sombra


as sombras protegem e modelam.
as sombras falam quando as bocas
se entreabrem num beijo sem tempo.
sombras vermelhas reflectidas, manhã
difusa, mundo em suave contraluz e saliva.

22 fevereiro 2013

Viagem de comboio à noite

viagem de comboio à noite:  lá fora
só a pontuação histérica das luzes 
- laranja e branco néon. nem um rosto
perceptível atrás das muralhas do sono. 
viagem. lenta enumeração de estações
e apeadeiros, aproximo-me mais, 
entre bocejos, 
de um destino transitório, daquela voz
metálica que me diz o caminho. casas vazias. 
não tenho sono e o corpo dói-me. ruído  
e inclinações de enjoo e a funda percepção
da eterna e constante mudança do corpo.
movimento. a velhice enorme de cada segundo, 
a fugaz passagem do futuro a passado na brevidade
dos dias presentes. assim passamos por aqui.
estou só. continuo só. sou só. só sei ser bem
só. por muito que me queria enganar e pensar
o amor em formatos que só eu conheço e acredito;
formatos indizíveis e irrepetíveis. falta-me uma bolsa
a condizer com os desejos; falta-me um coração
para esta boca, uma boca para estes pensamentos
e mãos para escrever tudo no seu significado absoluto.
só eu acredito ainda no amor, por mais que o negue.
nas contradições do amor, nas fugas do amor, 
nas imensas mentiras e completas traições do amor.
e acredito que depois de tudo, as feridas se fecham
com amor completo nas mãos vazias que se entregam.
na janela está tudo negro agora e uma enorme paz caiu,
apagando luz, ruído, movimento e ponto de partida.
inexoravelmente aproximo-me cada vez mais de uma casa
que só eu sei preencher de luz, de silêncio - e calor.

17 fevereiro 2013

Espera

ele tarda, ela não chega, 
os carros na rua permanecem os mesmos. 
os cães ladram e o jantar arrefece. 
nunca fui feliz em serzedo, ainda menos
aqui… seja em casa, nas lentas cavernas 
onde durmo algumas noites, ou em lares
e camas emprestadas para umas horas apenas.
noites estranhas que culminam os dias trabalhosos,
sangue e dor. gritos primordiais. flash de amnésia
e uma imensa solidão interior na madrugada
de mais um dia em que se entra de pé em riste.
nenhuma paz. gritos e ódio. nervos no cancro da pele.
conduzir horas e horas a fio, fio negro à minha frente,
quilómetros de nada enquanto a manhã avança
até casa. todas as janelas fechadas. ninguém 
dentro de mim ou fora. silêncio agora. sem pânico. 
vazio 
enquanto meto a chave na fechadura. mais porta
do que passagem, entro. sofá durante horas a ver
a névoa do dia a crescer. mais cinzento que eu.
dormitar vestido com a cabeça ainda cheia de ruído.
acordar com o toque assimétrico da chuva nos vidros.
dormir outra vez. 4 horas em que me posso esquecer
de tudo, menos de mim que existo dentro desta cabeça,
nesta forma incompleta e incomunicável - e nada acontece.
bip-bip-bip do relógio que herdei do meu avô. realidade
high key da janela enquadrada em torno da madeira 
e ninguém com quem falar. nenhum divertimento mais a ter.
4 horas ilusórias em que me posso esquecer de tudo, 
menos de mim que existo dentro desta cabeça, desta forma 
incompleta.

14 fevereiro 2013

Dias assim


esperamos que o amor nos entre portas dentro
enquanto esperamos à janela uma palavra 
que nos fixe ali, naquele momento de encontro.
a mesa está posta, o vinho servido, a casa quente
- faltam somente as vozes para dar música às paredes.




13 fevereiro 2013

Reflexo esquecido


sempre que como maçãs volto a sentir o teu sabor, 
fruto quente de agosto gostoso, 
reflexo esquecido das minhas mãos nuas.

12 fevereiro 2013

#77


Crime ou castigo

ainda não me explicaram se sou o crime ou o castigo,
o acto ou a consequência. entregam-me as mãos abertas
sobre os livros, os rastos poluídos da psicose da entrega
marcados na pele, no cansaço dos olhos que se escondem
retribuindo o olhar. falo de fotografias, em olhar na varanda
do olhar do outro, ver o que o outro vê sem o alcançar, sem
conseguir agarrar o tacto e os cheiros da presença... pensamento
libertado e feito coisa física e criação pessoal. há apenas silêncio,
os meus olhos, imagens mal-formadas, intenções dúbias e inuendos
digitais - um silêncio de morte planificada sobre tudo isto.

11 fevereiro 2013

#107

Porto, 2013


há locais que me fascinam porque não deveriam existir.

10 fevereiro 2013

Bifocais


debaixo das lentes bifocais da culpa
espero 
pacientemente a tua voz de cadela 
com cio vinda do outro lado, intocada
ainda pelos ácidos da minha saliva,
pelas distorções dos meus sentidos.
não te conheço. tu não me conheces.
vivemos desesperados sendo o que 
somos em separado, tendo a certeza
que a união seria fugaz e não apagaria
o teu imenso desejo - e impossibilidade -
de viver plenamente um segundo apenas
na vertigem da velocidade alucinante.
não nos pertencemos e isso é libertador.
sei que se houvesse oportunidade e lugar
tu te entregarias de quatro, o rabo empinado 
para mim, de costas para não me veres 
e eu ser mais um momento de fantasia;
de costas para te poder matar quando quiser…
como se tu quisesses morrer e isso te excitasse
ainda mais. a tua maior invenção inútil sou eu.
sem utilidade nem corpo como uma miragem 
no lonjura do deserto, sem calor nem forma
que não a que a tu me deste. e excita-te o controlo.
sei que as tuas mãos são pequenas, o teu corpo
esguio e que andas como se assassinasses 
cada segundo de sangue que respira em ti. sei
a tua voz e sei as verdades relativas do que dizes.
numa cidade desconhecida espera-nos uma tarde
para me infectares com o vírus da existência.

06 fevereiro 2013

#10


Sem tempo para escrever


porque será que os poetas não escrevem 
sobre as mãos molhadas da loiça fria? 
também nunca lhes escutei nenhuma palavra
sobre os dedos gretados pela normalidade,
o cheiro a comida na roupa, as mãos sujas
do cheiro a alho e cebola, as cicatrizes da vida
regular e comum - como se no mundo todos nós 
fossemos ou criaturas de outro mundo; ou amantes
de todos os dias; ou animais políticos engajados; ou
apenas surrealmente doidos e inconsequentes 
no exercício de desconstrução da realidade. contudo, 
há palavras demasiadas e demasiado grandes
e, por isto, insignificantes demais para o mundo como é:
para regular a morte do amor, a limpeza da sanita no coração,
a pia entupida entre palavras e a língua, a economia entre
os sentimentos e o dia para viver amanhã, mais um sem fim
de horas para nada… para o crescimento do desinteresse
rodeados de estranhos familiares, talvez haja uns minutos.
e disto eles falam: da estranheza do viver, do exercício social,
da impossibilidade do contacto e da comunicação perfeita
- mas por códigos, ocultos nas sombras das letras, sibilantes
como quem não sabe do que fala e tenta parecer que sabe.
desconfio de poetas. escondem monstros dentro deles.
monstros inteligentes e selvagens que mudam e escondem 
veneno na saliva, na tinta que lhes suja os dedos, nos olhares
silenciosos para as coisas, nos silêncios arritmicamente
respirados que nos dizem a cadência do mundo:
"sim! sim! sim! três vezes sim! estou vivo - e não sei o que fazer!"
e depois vão lavar a loiça e ficam sem tempo para escrever.

03 fevereiro 2013