Já nada bate no silêncio da casa. Só o sussurro
do relógio esfregando os ombros no tempo.
Para onde foi ele? Apenas resta uma visão turva
da despedida. O adeus contido. Já nem sei escrever,
se é que alguma vez soube juntar letras para formar
palavras para formar um corpo simbólico de mim.
Explico-me inutilmente: bebo para esquecer os últimos
anos, o sangue e as vozes silenciosas de amigos
que foram ficando pelo caminho; o sangue e as rochas
mastigadas até serem o cimento da minha indiferença,
a estrutura da minha ausência. Amores perdidos,
mulheres esquecidas e iradas… edifícios abandonados.
Tenho o mesmo encanto de uma ruína em progressão.
Engenharia em queda. Fraco vestígio biológico
deste esquecimento que nos roubou o poder de escolha.
Para onde ir agora? É demasiado cedo para tudo estar
perdido ou demasiado tarde para alterar tudo - para voltar
a viver e aprender a respirar entre rostos anónimos,
procurando uma trajectória entre o fumo dos carros
e as suas trajectórias desconhecidas (alheamento
mecânico do movimento feito desejo e intenção).
Olhando de dentro da publicidade, a vida possível
de um produto feito em linha, a ideia do passado
desperdiçado, ninguém está aqui agora, nem eu
ou uma qualquer imagem de mim. Barrigas inchadas
de fome contam a sua história nos ecrãs e limitamos
a sentir-nos gratos por serem outros e não nós a sentir
aquela fome, o vazio da carne morta, e continuamos
a sonhar os desejos materiais do corpo. Estou ancorado
aqui agora, por muito que queira fugir e encontrar outros
olhos, outras mãos. Reencontrei o caminho para o buraco
onde os sonhos se perdem na respiração. Sou um elefante
ferido no flanco: sangro o vermelho da estrada solitária
e os pés pesados do caminho afundam-se na lama podre
que é o corpo feito homem dos meus ossos quebradiços.