22 julho 2014

Como dizer adeus

Já nada bate no silêncio da casa. Só o sussurro 
do relógio esfregando os ombros no tempo. 
Para onde foi ele? Apenas resta uma visão turva
da despedida. O adeus contido. Já nem sei escrever, 
se é que alguma vez soube juntar letras para formar
palavras para formar um corpo simbólico de mim.
Explico-me inutilmente: bebo para esquecer os últimos
anos, o sangue e as vozes silenciosas de amigos 
que foram ficando pelo caminho;  o sangue e as rochas 
mastigadas até serem o cimento da minha indiferença, 
a estrutura da minha ausência. Amores perdidos, 
mulheres esquecidas e iradas… edifícios abandonados. 
Tenho o mesmo encanto de uma ruína em progressão. 
Engenharia em queda. Fraco vestígio biológico
deste esquecimento que nos roubou o poder de escolha. 
Para onde ir agora? É demasiado cedo para tudo estar 
perdido ou demasiado tarde para alterar tudo - para voltar 
a viver e aprender a respirar entre rostos anónimos,
procurando uma trajectória entre o fumo dos carros
e as suas trajectórias desconhecidas (alheamento
mecânico do movimento feito desejo e intenção).
Olhando de dentro da publicidade, a vida possível 
de um produto feito em linha, a ideia do passado 
desperdiçado, ninguém está aqui agora, nem eu 
ou uma qualquer imagem de mim. Barrigas inchadas
de fome contam a sua história nos ecrãs e limitamos 
a sentir-nos gratos por serem outros e não nós a sentir 
aquela fome, o vazio da carne morta, e continuamos 
a sonhar os desejos materiais do corpo. Estou ancorado
aqui agora, por muito que queira fugir e encontrar outros
olhos, outras mãos. Reencontrei o caminho para o buraco
onde os sonhos se perdem na respiração. Sou um elefante 
ferido no flanco: sangro o vermelho da estrada solitária 
e os pés pesados do caminho afundam-se na lama podre 
que é o corpo feito homem dos meus ossos quebradiços.

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