É neste momento em que todas as circunstâncias
históricas e ideológicas se precipitam sobre ti,
como que um regresso, lentamente, a quem se sabe
ser, vindo de um lugar familiar, mas sempre desconhecido,
que sabes quem não és nem consegues ser. Silêncio agora.
Tudo acontece. Pára um pouco. Preciso de tocar este reflexo
para saber se existo… que existo assim, mas do outro lado.
De madrugada, eterno não-lugar de silêncio, mundo
em âmbar - estou aqui, fora de ti e de mim, falando
um espelho sem saber quem sou, excepto este sentimento
ondulante sobre esta superfície gelada que eu sou em mim.
Alguém me fale, por favor, que este rosto aqui à minha frente
não me diz nada e a sala está vazia, mais ninguém que não eu.
Só, o sopro das paredes, os mecânicos tornos da claustrofobia,
pedaços fechados de quem sou feito casa, feito coisa,
e mais um pouco que não sei dizer o quê... Fica-me mal
esta fraqueza de não ter palavras para dizer, mas continuar
falando para não me esquecer nunca do que pensei ou tentei
esquecer. Comunicar. Tentar dizer como sou por dentro
esperando encontrar menos que um eco. Continua a não haver
ninguém a quem ligar às quatro da manhã. Ninguém na noite
de domingo. Nenhum rosto adormecido no sofá à espera de ser
despertado. Apenas esta cara diante de mim. Sem sorrir.
Nenhuma mão disposta a despertar do sono como uma serpente
de muitas cabeças e a agarrar o telefone que tocapara dizer vem.
sei no fundo de mim quem és. sei que palavras te dizer, mas hoje,
só hoje, vamos reencontrar a eloquência do silêncio a dois.
Sobre o mundo, contudo, sucedem-se as cicatrizes das notícias:
as circunstâncias históricas e ideológicas que te ensinaram;
o acaso lancinante da existência de todos, de todos em existência;
o desconhecimento pleno de quem se é aqui, do que esperam...
Das imensas possibilidades de quem não tem nada para oferecer.