19 outubro 2012
sem terra
agora que não és daqui nem de mais nenhum sítio
vão continuar a lembrar-te sempre que lerem
uma palavra tua
ou
quando uma mulher que amamos, sem saber,
passe rápida sem olhar o momento demorado
em que nos prendemos. ao escrever-te agora
escrevo para todos os mortos que trago dentro:
avôs, mulher abandonada, pais que envelhecem
sem que se possa parar o tempo, eu mesmo,
cada dia mais embrutecido e silencioso. escrevo
para todos os mortos perdoarem o esquecimento
que é a sua lembrança. o mundo continua, é certo,
mas um dia todas as palavras serão o mesmo pó
inerte acumulando-se sobre o que fica para trás.
e a viagem é sempre tão curta, não é?
a morte é isto
A um homem do passado
Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?
Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e maus momentos.
Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.
Manuel António Pina, in "Nenhum Sítio"
Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?
Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e maus momentos.
Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.
Manuel António Pina, in "Nenhum Sítio"
01 outubro 2012
Calafetar
e esta navalha, reflexo condicionado
e devolvido. mais um corte, outro
fim. detesto ver estas lojas
fechadas, os gumes cortantes
das janelas partidas, carros caros
e pessoas baratas confusas, som
repetido na sílica do vidro solto.
reflexos. em conversas banais.
passo a passo do conforto, refluxo
gástrico do meu sono despertado.
aqui me desloco num tempo-espaço
emprestado, entre sons estridentes
ou vozes de morte que são medida
e cor do meu falhanço, pressentindo
que as letras gravadas à força de metal
não são suficientes para prender
mensagens ou sangue. ninguém olha.
mais lojas banais fechadas pela crise
ou
pelo modo como pararam no tempo
ou
pelos shopping cogumelos dos subúrbios
ou
pelo desinteresse irónico pelas coisas banais
que, afinal, eram tudo o que se pode ter
para calafetar as paredes finas contra o inverno
rigoroso
da solidão e da velhice.
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