19 outubro 2012

sem terra


agora que não és daqui nem de mais nenhum sítio
vão continuar a lembrar-te sempre que lerem
uma palavra tua
ou
quando uma mulher que amamos, sem saber,
passe rápida sem olhar o momento demorado
em que nos prendemos. ao escrever-te agora
escrevo para todos os mortos que trago dentro:
avôs, mulher abandonada, pais que envelhecem
sem que se possa parar o tempo, eu mesmo,
cada dia mais embrutecido e silencioso. escrevo
para todos os mortos perdoarem o esquecimento
que é a sua lembrança. o mundo continua, é certo,
mas um dia todas as palavras serão o mesmo pó
inerte acumulando-se sobre o que fica para trás.
e a viagem é sempre tão curta, não é?

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