30 dezembro 2013

Palavras Cínicas

      "O pobre corpo nu corre a roda toda como um copo numa bodega, amarrota-se, enlameia-se. Toca-me a vez: os mesmos abraços que deu à minha noiva, os mesmos beijos que dei à minha mãe dou-os agora a esta. Isto é lógico. 
       Vender o corpo é melhor do que vender a alma, mas vender a alma e o corpo como seria bom!
    Mulheres honradas? Ah! tu crês em mulheres honradas e homens bons? És parvo. Todo o homem atraiçoa e toda a mulher falseia. Todos mentem. Mentira é o céu, o inferno é mentira. É mentira Deus, é mentira o Bem, o Amor e a humanidade.
      Em que acredito eu? No crime e no dinheiro. O crime é Deus, o dinheiro é Deus, e de ambos o dinheiro é maior. É por dinheiro que se compram almas, por dinheiro é que as mulheres se vendem.           Quantas almas não conterá um saco de dobrões, quantas? A quantos corpos não poderia ele despir?"

Palavras Cínicas, Albino Forjaz de Sampaio

27 dezembro 2013

Em frente aos outros

Foi o passado que nos cortou a cara.
Foi o passado que nos desfigurou.
Foi o passado que nos deu forma 
         e conteúdo.
Foi o passado que nos conduziu aqui.
É no dia de ontem que vivemos e,
depois de cada dia é a esse dia 
que procuramos escapar sem nunca
conseguir esquecer os traços e os gestos,
os sucessos e as desilusões. Falamos 
uma estranha linguagem de atrasos 
e adiamentos, a língua acaricia fantasmas
e fala de memórias, conta os caminhos 
atravessados até chegarmos aqui,
até à pessoa que nunca chegamos a ser.
Erguemos as mãos vazias em frente à cara,
escondemos os olhos e a cara para nunca 
sabermos quem poderemos ser em frente 
ao espelho… em frente aos outros.

11 dezembro 2013

Um fio de volta ao fim

Somos vasos partidos. cacos de cerâmica 
atirados ao chão por mãos cruéis, devassas
crianças jogando ao rompe-e-rasga, pele 
e cicatriz, lágrima de sangue e ninguém
chora primeiro. quem somos agora?
tudo está feito e nenhuma surpresa pode vir
do corpo vezes e vezes sem conta violado. 
e sempre o mesmo rosto recalcado,
o mesmo nome e as memórias onde se retorna:
a mesma criança perdida, um pálido brilho na noite, 
um fugaz sorriso; as agressões do amor e as coisas 
perdidas e as pérfidas mortes uterinas do tempo.
ainda nos resta um regresso? um só?