01 julho 2014

Na dúvida se existo

Passemos agora ao exercício da noite:
o poema escrito sobre o silêncio do mundo, 
mãos frias atacando o teclado e lá fora a chuva.
Mais uma vez. Como sempre, afinal. Pensa-se 
em música, mas já não tem nome nem corpo a mulher 
que cruza as ruas e anda sobre a água. Imagem indistinta. 
Cliché. 
Todos os possíveis rostos flutuam, misturados, 
sob a água, 
sem respirar. Não se ouve música. Apenas silêncio. 
Um vento que ganha velocidade à superfície e que entra 
pelas frinchas das frágeis paredes da casa de papel.
O que fazer agora para não me sentir incompleto, 
uma farsa sempre que respiro mais profundamente
e me sinto vivo e em dúvida sobre quem poderia ser?

Dizem que amanhã, aparentemente, vou reencontrar-me 
com a rotina do mundo. O espaço em branco onde me movo. 
A realidade é o silêncio e nenhuma presença que me mostre 
quem sou na mudança das marés. E cada dia novo é apenas
mais estranho que o outro passado. A verdade é que já é tarde 
para dizer quanto valemos, se é que alguma vez valemos um cêntimo.
Já nenhum de nós sabe quem é, o que é. Quanto se vale, ordenado,
quando o que pensas e suas não vale um grama de pó, 
uma mão-cheia de terra para tapar os olhos?

A verdade é que ando a trocar o corpo por umas horas mais 
de completa infelicidade enquanto procuro descobrir
quem sou ainda. Mas fico sempre sem saber o que resta de mim
depois da matemática da perda. Não tenho espelhos em casa.
E tu, à minha frente, guardaste sempre o rosto enquanto roubava
tempo a este tédio de trabalho escrevendo estas palavras entediantes.
Igualmente sombrias. Sombrias como nós quando nenhuma luz chega.
Nesta sombra não consigo deixar de pensar no que poderia pensar 
se fosse outra pessoa, se quem sou fosse outra pessoa ainda por conhecer.
E permaneço na dúvida se existo.

1 comentário:

Strawie disse...

" dubito, ergo cogito, ergo sum"