22 fevereiro 2013

Viagem de comboio à noite

viagem de comboio à noite:  lá fora
só a pontuação histérica das luzes 
- laranja e branco néon. nem um rosto
perceptível atrás das muralhas do sono. 
viagem. lenta enumeração de estações
e apeadeiros, aproximo-me mais, 
entre bocejos, 
de um destino transitório, daquela voz
metálica que me diz o caminho. casas vazias. 
não tenho sono e o corpo dói-me. ruído  
e inclinações de enjoo e a funda percepção
da eterna e constante mudança do corpo.
movimento. a velhice enorme de cada segundo, 
a fugaz passagem do futuro a passado na brevidade
dos dias presentes. assim passamos por aqui.
estou só. continuo só. sou só. só sei ser bem
só. por muito que me queria enganar e pensar
o amor em formatos que só eu conheço e acredito;
formatos indizíveis e irrepetíveis. falta-me uma bolsa
a condizer com os desejos; falta-me um coração
para esta boca, uma boca para estes pensamentos
e mãos para escrever tudo no seu significado absoluto.
só eu acredito ainda no amor, por mais que o negue.
nas contradições do amor, nas fugas do amor, 
nas imensas mentiras e completas traições do amor.
e acredito que depois de tudo, as feridas se fecham
com amor completo nas mãos vazias que se entregam.
na janela está tudo negro agora e uma enorme paz caiu,
apagando luz, ruído, movimento e ponto de partida.
inexoravelmente aproximo-me cada vez mais de uma casa
que só eu sei preencher de luz, de silêncio - e calor.

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