23 Janeiro 2012

Pormenores


enquanto nos entretemos a racionalizar
a dor, os nossos entendimentos separados,
os nossos imensos egoísmos, a vida real 
passa-nos ao lado. somos o que somos.
é isto. apenas. com as nossas loucuras
e entregas que não são o que são. são
sempre outra coisa noutros olhos. 
queremos o mundo para nós. o nosso 
fica sempre nas nossas mãos, nunca 
se entrega. a batalha que travamos 
nunca é pela compreensão: procuramos
alguém que se renda a nós, que nos 
persiga a ilusão da nossa solidão 
sem esperar nada em troca. e depois
partimos, sempre, sem mais uma palavra.

a beleza para mim não é nada. 
a macro dos meus olhos é um bisturi 
com que separo a realidade daquilo
que efectivamente é. pormenores soltos,
sem qualquer relação com o corpo
a que pertencem. uma pele. um lábio.
uns olhos. aquela forma particular de ser.
pessoas cubistas, formadas à imagem
das imagens que projectam, escondidas
atrás dos gestos. o mundo dos meus olhos, 
mais completo em cada pormenor, melhor
do que a própria forma como se olham
a si mesmas ao espelho. beleza é uma 
palavra. um conceito abstracto. uma coisa
pouco importante que se preza e se perde. 

nunca me deram nada. mulheres acomodadas
com quem eu me liguei entregaram o corpo,
meia dúzia de horas, o calor de uma cama
e de meia dúzia de gestos gastos com outros 
antes de mim. conversas vazias em que me 
contam os amantes, o prazer, o passado inútil, 
como foi bom sentir que eles me queriam.
chamam a isto sofisticação. ser moderno. 
ver o mundo da perspectiva do umbigo 
e chamar-lhe meio-termo. esperar tudo sem 
dar nada. chegar ao amor como a uma religião:
rastejando, cheio de humildade, sem sequer 
uma lembrança do que foi ter amor-próprio.
esperar. esperar que um dia haja tempo 
e vontade para oferecerem o mesmo 
que exigem. olho o futuro ao lado de alguém
e vejo uma planície branca. sem fim. nada.