Sou puro pensamento impuro.
Sou uma mesa cheia de pratos
sujos e colheres vazias. Uma
cadeira partida e uma toalha
suja. Sou. Uma garrafa meio
de bebeda junto a mais um
euromilhões amarrotado. Puro
pensamento e desilusões. Falta
de sorte e estou aqui calado
e desatento como quem observa.
Para passar o tempo, outros colam
papéis brancos às paredes tentando
reter fugazes memórias, breves ícones
das vozes interiores que nos guiam
e de dias e noites passados sem termo.
Mas até as paredes vão ruir um dia
e, quando temos todo o peso dos factos
como uma engenharia falhada sobre nós
recordar é um exercício difícil e irrespirável.
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