é sempre o mesmo deserto como paisagem de fundo.
o ruído ram-ram das rodas raspando continuamente
a gravilha do caminho. o sem-fim da paisagem-roda
retro-iluminada, como os desenhos animados onde
ninguém fala e o fundo é repetitivo e se agita perante
as personagens imóveis, repetição de loucura, loucura
repetida acorde após acorde a olhar as cores do som.
é uma experiência e mais uma tarde de domingo onde
se passa o tempo esgotando a melancolia da semana.
a imaginação chega pouco, mas tem de servir: recordar
como seria de novo respirar sem esta pressão no peito;
sem este chumbo derretido desabado dentro da carcaça.
esperei até ser tarde demais para chegar cedo a casa.
a mais outra. casa. a paisagem agora é negra, pontuada
por luzes e névoa fria da estrada. viajo depois da meia-noite:
ninguém olha já os rostos com quem se cruza. estações
de serviço meias vazias e com aquela tristeza que se cola
às cores berrantes, à mecânica metálica, aos rostos aquários.
é apenas mais uma viagem, mais umas horas de mediação
entre a distância que me leva daqui até outro lado qualquer.
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