03 maio 2012

Es.co.la


"be cunning and full of tricks"

frase escrita numa parede e definidora de épocas


todos sabiam que a vitória seria breve,
mas ainda assim seria uma vitória. 
por um dia, breve também, podiam 
ultrapassar as fronteiras humanas 
impostas por deus, pátria, sociedade, 
família, polícia, capital, educação, 
orçamentos, vícios, espaços, fronteiras, 
propriedade, política, trabalho, preguiça, 
feriado, tempo, idade, e ser democracia: 
uma voz que se ergue do fundo, um corpo 
milípede que caminha numa só direcção.
sem astúcias básicas, sem truques. 
armados de verdades e megafones 
e de mãos nuas contra chapas e parafusos
e paredes sujas e fechadas.
toda a gente sabia que seria breve. um
momento apenas em que se ficaria sozinho
no poço silencioso das vértebras e sentiríamos
igual ao sorriso ao nosso lado. entre a chuva 
de vidro, de metal, e o ruído ensurdecedor 
dos bombos, há um momento pleno de certeza
que emerge, verdadeiro e completo. longe 
da mesquinhez de contractos; real, por fim.
no dia seguinte, de manhã cedo, regressariam
as nuvens negras, os cadeados, os polícias, 
os cassetetes, mais cadeados, aloquetes e outros
pés mais pesados, e ainda as câmaras e as luzes,
e ainda outras mãos para voltar a fazer esquecer 
a absoluta e agora silenciosa vontade popular.

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