é verdade, cá estou eu novamente,
repetindo os movimentos de anos,
a depressão de outros. foz, palmeiras,
este cais de embarque ou observação
aparentemente real e que nunca abraçou
um navio, onde burgueses nunca embarcaram
em direcção a uma vida melhor; estou
aquí, estacionado no passeio, vendo
os faróis como quem espera algo melhor,
horrorizado porque não consigo pensar
em nada para ocupar as 24 horas do dia
de amanhã. segunda-feira, o que fazer?
como dei à costa a este naufrágio?
continuar vivo, acreditar que serão estas
vinte e quatro horas (por extenso) as reais,
as salvadoras para a navegação entre balizas
invisíveis, fúteis. a verdade é que esta solidão
é um cancro, uma coisa viva que cresce
e se alimenta de nós, de tudo o que fazemos
para nos aproximar da vida que nos ilude,
do trabalho que falha, dos que nos rodeiam
igualmente sós, como cada um de nós está,
todos os dias. sem nome, é o que somos,
apenas mais uma partícula menos fina agarrada
à terra, à vida, ao canto que encontramos
no mundo que nos rodeia e sofoca a cada domingo.
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