08 dezembro 2011

A moral dos poetas


perguntas-me várias vezes o que vejo em ti.
agora respondo: um corpo do desejo, feições 
do prazer, companhia na solidão que tu também
conheces. ignoras-me à anos; enganamo-nos 
ambos em corpos outros noutros desejos,
continuamos, irresistivelmente, presos pela anca.
e o medo, essa outra circunstância, move-nos
em direcção à religião, à moral, à alma eterna
que será julgada hoje e sempre, ámen.
não acredito na alma. não acredito na morte.
são ambas consequências de existir. de ser
no corpo que se tem. não se podem culpar 
os dados jogados pelo acaso do jogo. a alma, 
nome cristão da voz da nossa pele, da abstracção 
que existe em nós; a morte, dispersão enérgica
da energia, das memórias, dos átomos. acredito
sim, muito, no corpo e na razão. de ser e estar 
plenamente onde se está, para onde vai aquilo 
que nos leva a viver. ser completo dura 1/300 
de um segundo ou uma vida inteira e aquilo 
a que os homens chamam de amor não é mais 
do que desejar, desejar tudo o que se pode ter 
- para si. na verdade, há mais verdade no prazer 
e no vinho do que nas palavras manietadas 
pela moral perversa de todos os poetas.

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