13 março 2008

palavras para Hunter S. Thompson (Falecido)

Sei que estarias desiludido
(como eu estou)
com o rumo que estes filhos da puta
deram às coisas.

A onda libertária que cavalgaste
recuou e levou parte da água com ela.

Hoje é na lama que chafurdamos

-na repetição de modelos ultrapassados
com medo que o público não goste,
não conheça, não apoie;

-acreditando cegamente
em acessores e doutores-marciais na arte da cortina
de fumo, no silêncio que fala mais que mil palavras,

-sem olhar nem reparar nem ver,
uma profissão, um ordenado ao fim do mês...
sonhos de uma vida simples a "produzir conteúdos".

Quem te rodeava acreditava assim tão... pouco?

O jornalismo está nas mãos de autistas,
meninos de universidade de voz fina
ainda sem barba não aguentam o alcóol
e o teor de realidade ultrapassa
todas as suas expectativas

Para onde vai isto?

Más vibrações, academismo vão,
Medo e nojo neste 6º Reich em construção
do outro lado do deserto oceano:
delírios pan-europeus e centralismo,
a mão do estado que descansa no teu ombro.

Esses yuppies ressacas prendem-nos às camas
em delírios de cabedais - grilhetas na mente,
corpo apertado entre paredes erguidas
e escavadas fronteiras.

E, enquanto me sento aqui como um inútil,
uma realidade maior existe fora de mim
impalpável

Verias com maus-olhos estes... versos?

Que te importaria ver-te aqui re-escrito
ou re-assassinado nas minhas palavras?

-seria melhor se te importasses?

Vês estas pessoas nos meus significantes?

Nestas palavras alinhadas como soldados
reticentes que envio para a morte
- como o teu tiranete democrático
envia conterrâneos (des)humanizados
para se perderem no deserto
e ele beber no sangue negro na areia.

De deserto em deserto vamos existindo
alheios ao vácuo da existência

(e lê-se a Maria e passam-se bilhetinhos e há sorrisos e risinhos e facas nas costas)

(e a inocência e o rubor falam mais alto sempre que se pronuncia a palavra "sexo", "flatulência", "prostituição", "fome", "pedofilia", "tortura", "violência", "violação", "aborto", "racismo", "preconceitos", " construção do indivíduo"... mas há mais...)

Que gente triste meu silencioso amigo desesperado!

E mais triste eu por aqui estar,
olho-crítico a tudo o que me rodeia,
a ponta de liberdade da janela uma condição impossível,
a mente fervilhante de questões
que só o instinto pode responder
- a consciência da minha animalidade.

Terás sido assassinado pela selvajaria da tua voz?
Mártir não-religioso da liberdade de imprensa,
da questionação e curiosidade natural ao ser-se Homem

-questiona tudo e todos;
-confirma as fontes;
-não tenhas medo de falar alto se falares a verdade dos factos;
-tem consciência que tudo é subjectivo, até os factos;

Ou foi o tédio? a idade? o desgaste a erodir-te dia após dia
e tu preparavas-te para a viagem

"Ride the snake, to the lake, the ancient lake"

a mão benigna desce sobre os olhos, súbita.

Nas pessoas podemos escutar a sua magnífica surdez.
Para onde foram os Homens? E as Mulheres?

Onde se escondem as Mulheres durante dias a fio?

Para onde foi a sua juventude,
a sua aura prístina,
as manhãs passadas a sentir o sol a subir pelo corpo,
relógios de carne, relógios solares, perfeitos maquinismos...

Para onde foste tu?

Em que ondas da mente andas montado?

Bêbedo e drogado
sincero Homem imperfeito e real
analisa a sua análise
e pensa e vê ou julga ver
Maya, a ilusão, a selva de lianas dos sentidos.

Em que cavalo apostaste tu na última corrida?

Selah irmão!

Demasiados demónios nos morderam as mãos,
mas permaneceremos,
escultores dos factos,
analistas do credível,
homens selvagens nesta idade moderna de maricas.

Cai a mão, cai a arma, cai o silêncio.

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