Vem
toca-me agora
e torna real o momento
em que a carne desperta a mente
e se acendem as luzes do dia
-apesar de a luz já ter existido e inundado o olhar
vamos
atravessemos a porta que eu evito
no cansaço que afugento
quando o perigo são as palavras
insuficientes para definir o silêncio desta noite
ou o incómodo zumbido das luzes
ou a mão que procura o vazio
e quase lhe toca
binómios depressivos é o que somos
prazeres diluídos
ainda antes de tocar os lábios
que sabem a carne
... nada mais
o sangue e a pele quente
que sabe a ferro
a frieza do aço envolvente
latrinas fétidas onde o tempo parece parado
e nós vivemos
para chegar a casa sem nada
para dizer MERDA
como num poema sem sentido
feito de avanços e recuos
da frágil consciência
esquizofrénico espreito para fora de mim
sinto as coisas como um novo estranho
o perfume guardado na cama feita
as passagens que subsistem dos corpos cruzados
o enigma
vem
deixa-me ver-te real
aqui e agora
explode para fora de ti
contra o tempo que falta
contra o reconhecimento fácil da carne
contra a fragmentação pontilhista da criação
vem beijar a boca do mundo
possuir a carne e as suas vibrações
possuir a palavra alma e as palavras que a formam
e ser plena e possuída e não fazer sentido como a beleza do mundo
tenho sonos divinatórios que esqueço
quando acordo sem beijo para saudar o dia
e na noção de corpo as memórias de outros dias
e noites quentes
num ano de verão permanente
todas as minhas fantasias vão envelhecer e engordar
menos tu
fogueira do meu sexo
luz do meu intelecto
humana razão que perco
quando ando às voltas e mordo a minha cauda reptiliana
em uivos de dor
de prazer adiado e esquecido
quando
a minha carne está morna para a frieza da tua alma
contida nas relativas leis dos homens e do mundo
contida
na regência do afastamento dos corpos celeste e carnais
precisamos de fogo para as mãos
tira a chama que arde no peito
limpa a lama dos meus olhos
quando é que a última palavra terminará o poema?
quando nos salvaremos?
felino e ágil movo-me por entre o desejo
completamente incompleto nas incertezas
de animal vivo e palpitante
a humanidade acabou
agora
o tempo do dinheiro fala mais alto
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