24 agosto 2008

Vem

          Vem
toca-me agora
e torna real o momento
em que a carne desperta a mente
e se acendem as luzes do dia
-apesar de a luz já ter existido e inundado o olhar

          vamos
atravessemos a porta que eu evito
no cansaço que afugento
quando o perigo são as palavras
insuficientes para definir o silêncio desta noite
ou o incómodo zumbido das luzes
ou a mão que procura o vazio
e quase lhe toca

binómios depressivos é o que somos
          prazeres diluídos
ainda antes de tocar os lábios
que sabem a carne
... nada mais

o sangue e a pele quente
que sabe a ferro

a frieza do aço envolvente
latrinas fétidas onde o tempo parece parado
          e nós vivemos
para chegar a casa sem nada
          para dizer MERDA
como num poema sem sentido
feito de avanços e recuos
          da frágil consciência
esquizofrénico espreito para fora de mim
sinto as coisas como um novo estranho
o perfume guardado na cama feita
as passagens que subsistem dos corpos cruzados
          o enigma

          vem
deixa-me ver-te real
          aqui e agora
explode para fora de ti
contra o tempo que falta
contra o reconhecimento fácil da carne
contra a fragmentação pontilhista da criação

vem beijar a boca do mundo
possuir a carne e as suas vibrações
possuir a palavra alma e as palavras que a formam
e ser plena e possuída e não fazer sentido como a beleza do mundo

tenho sonos divinatórios que esqueço
quando acordo sem beijo para saudar o dia
e na noção de corpo as memórias de outros dias
e noites quentes
num ano de verão permanente

todas as minhas fantasias vão envelhecer e engordar
          menos tu

fogueira do meu sexo
luz do meu intelecto

humana razão que perco
quando ando às voltas e mordo a minha cauda reptiliana
em uivos de dor
de prazer adiado e esquecido

          quando
a minha carne está morna para a frieza da tua alma
contida nas relativas leis dos homens e do mundo
          contida
na regência do afastamento dos corpos celeste e carnais

precisamos de fogo para as mãos

tira a chama que arde no peito
limpa a lama dos meus olhos

quando é que a última palavra terminará o poema?
quando nos salvaremos?

felino e ágil movo-me por entre o desejo
completamente incompleto nas incertezas
de animal vivo e palpitante

a humanidade acabou

          agora

o tempo do dinheiro fala mais alto

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