07 julho 2009

Assimila

Comecei a escrever com 12 anos.
Que diferença é que isso faz agora?
- Tudo ardeu voluntariamente e a água
Da memória levou as palavras na corrente.

Vou dar-vos uma metáfora à vida:
Criar para arder no fogo e aparecer a cinza subjacente a tudo.

A vida sem remorsos é uma ilusão fácil
Por isso criamos – celebramos a unidade impossível;
O fim da atomização solitária – o fim; a cinza;
As mudanças imperceptíveis da esquizofrenia.

Deixem as palavras arder
E os passos e os gestos aproximar o amor
Que parece impossível. Elas já não servem:
São sapatos largos demais para os passos
A dar, adiam a acção até à loucura
Dominar e não deixar os gestos fluírem plenos.

Mas sim, comecei a escrever com 12 anos.
Já sabia faze-lo, mas parecia não ter importância
(não sabia falar ou ainda não tinha voz criada
Na garganta) e as palavras pareciam brinquedos
Sem cor. Preferia...
O pátio de cimento, a luz
Verde das árvores, a areia suja do rio,
Esse sim eterno e grande, maior do que a alegria
De ser inocente e estar vivo, mais vivo do que a ilusão
De qualquer droga. É a visão periférica da infância,
Crescer brincando no seio maligno de Gaia, belo e profícuo.

A caneta veio depois para cortar as veias industrializadas,
Para distorcer a ilusão ocular do mundo e descobrir as pessoas
Que ainda são enigmas impossíveis e mutantes.

Apesar de já ter provado a inutilidade, a minha e a do papel,
Continuo a acumular conceitos relativos tentando dar uma forma
Às coisas, talvez a repetir o que sempre escrevi e queimei.

Sei agora que sou um átomo entre outros e que a união é impossível.
Rodopio como todos sobre a mesma elipse enlouquecedora
E nunca vamos conseguir escapar sem fragmentar o mundo
        Explosivo,
Sem o deixar na carne viva do fogo e da terra queimada - sem luz
        Ou som.
Apenas o arranhar frágil no papel
(Que não é luz nem som),
        Um escape relativo
Que nenhuma história vai contar depois de queimado.

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