03 junho 2010

é para isto

é para isto que comemos, sob outra 
forma, esta merda; para manter 
os desejos, raivas e o fardo 
indiscritível deste corpo. ainda 
assim, apesar de todas estas
fraquezas que se estendem como
dedos de osso na pele, todos 
procuramos a nossa forma triste
e particular de responder
às imposições do sucesso.
Ser através de coisas, um peso 
que nos prende ao centro da terra,
ao centro do nosso umbigo animal;
aqui, para isto, vale tanto o sonho
infantil de uma bicicleta quitada 
com rádio faz-de-conta e fita isoladora
preta ou a exuberante virilidade 
financeira de um M6 estacionado
à porta da nossa infelicidade. 
Entretanto, enquanto o cabelo sustém
a espada da dívida, movemo-nos
de olhos abertos e mãos vazias, a boca
cheia de estranhos sons, pelas costas
do silêncio arrítmico da noite. Sabemos
finalmente que no gume do risco
há sempre um prejuízo.

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