01 fevereiro 2012

a esplanada está a fechar


olho para cima e as nuvens no céu azul 
limpo são pedaços do meu cérebro 
explodido. a esplanada tem música, 
vozes soltas e brutas, o calor já se foi. 
o inverno regressa. este granito é solidão
de lágrimas. casas caem enquanto se pensa
em divertimentos nocturnos. pensar? como?
não é daqui que faço parte. desligado robot
sem missão programada, sem uso, contando
tostões de uma pobreza remediada. cerveja
terminada. sombras de pessoas e edifícios
e coisas alargam-se na praça. frio sobretudo.
a invisível repetição das horas como unhas 
invisíveis no quadro por preencher. têmporas.
estou aqui como um estranho. distante. 
refugiado na economia das palavras, medo
pela forma como elas se gastam enquanto
rolam pela língua, boca fora, em busca 
de compreensão, um significado para os sons
articulados, quase como música, quase como
rochas pesadas que se tiram de sobre o peito.
não entendo nada. observo. registo mental.
os gestos, fragmentos em acção. observo.
tento ver e tento. extrair sentido. um dente.
olhar pessoas e ver passados. contar rugas
nas caras que são tapetes calcados por
todos os calcanhares do mundo. há tempo 
demasiado para encher. estes dias não são
meus. não conheço o seu dono. silencioso, 
escrevo. ainda. não possuo nada. não falo.
silêncio. ruína. nina simone e nuvens. azul.
a esplanada está a fechar. começa a chuva.

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