"diz-me a verdade, gostas do gonçalo, não gostas?"
olhas com a mesma suavidade com que me olhavas.
já passou demasiado tempo sobre isto, mas recordo.
o corpo inconsciente aproxima-se do dele sem dares
conta. a atracção eterna, a gravidade da queda: tu-ele,
ele-em-ti e vocês-na-minha-memória-de-nós. assim:
ele não sai do teu lado. separamo-nos na fila para sair
do bar e a tua nuca cheirava a outras mãos. presencio
tudo, espectador, impotente como todos. máquina de
olhar, frio registo do calor da tua voz próxima, cúmplice.
ele fala. vi-te sorrir como já não via aos anos. tinhas bebido
também. sinto falta da tua espiral de loucura. dói onde
devias estar tu. falam noutro bar, mas estou cansado
desta noite, do correr constante de bar em bar em bar
procurando uma coisa que nunca encontro. caminhei
horas sozinho para queimar tempo para chegar a ti.
tinhas outro. outra vez. outra. novamente. merda! onde
dói mais, como sempre, é na descoberta constante
de que a ausência não faz diferença. sou uma pessoa
que se apaga, que se esquece. o estúpido sábio na torre
de marfim - ou num rés-do-chão suburbano, a solidão
possível, escolhida, imposta. tolerante… minto. onde
dói mais é no saber que haverá sempre outro onde
encontrar a felicidade, o corpo redondo e completo.
o esquecimento.
1 comentário:
"dói onde devias estar tu" - Genius!
Enviar um comentário