31 março 2012

Diz-me a verdade


"diz-me a verdade, gostas do gonçalo, não gostas?"

olhas com a mesma suavidade com que me olhavas.
já passou demasiado tempo sobre isto, mas recordo.
o corpo inconsciente aproxima-se do dele sem dares 
conta. a atracção eterna, a gravidade da queda: tu-ele,
ele-em-ti e vocês-na-minha-memória-de-nós. assim:
ele não sai do teu lado. separamo-nos na fila para sair 
do bar e a tua nuca cheirava a outras mãos. presencio 
tudo, espectador, impotente como todos. máquina de 
olhar, frio registo do calor da tua voz próxima, cúmplice. 
ele fala. vi-te sorrir como já não via aos anos. tinhas bebido
também. sinto falta da tua espiral de loucura. dói onde
devias estar tu. falam noutro bar, mas estou cansado 
desta noite, do correr constante de bar em bar em bar
procurando uma coisa que nunca encontro. caminhei 
horas sozinho para queimar tempo para chegar a ti. 
tinhas outro. outra vez. outra. novamente. merda! onde
dói mais, como sempre, é na descoberta constante 
de que a ausência não faz diferença. sou uma pessoa
que se apaga, que se esquece. o estúpido sábio na torre
de marfim - ou num rés-do-chão suburbano, a solidão 
possível, escolhida, imposta. tolerante… minto. onde 
dói mais é no saber que haverá sempre outro onde 
encontrar a felicidade, o corpo redondo e completo.
o esquecimento.

1 comentário:

misty. disse...

"dói onde devias estar tu" - Genius!