21 junho 2012

Anónimo


agora outras palavras para encher os mesmos significados. é este
o reverso do silêncio, da ironia: ódios ciciados, o cochichar eléctrico;
a televisão está longe e já não serve - é preciso despertar novamente,
encontrar algo novo para sacudir o torpor dos olhos e dos dedos. olha,
antes de mais, a moral e a verdade são conceitos que não pertencem
a ninguém: apropriamo-nos deles para dar valor às crenças, aos actos,
para explicar quem somos e porque razão fazemos o que fazemos. 
ouvem-se as palavras, mas as vontades ficam por cumprir. limitamo-nos
a ser, preguiçamos por sofás alheios o nosso tédio, o privilégio burguês
que nos permite considerar as acções dos outros à luz do querer, nosso, 
as influências dos astros sobre as personalidades e os humores, deles,
a profundidade e a qualidade de algo tão abstracto como a proximidade
e, sobretudo, sobre quem queremos ser aos olhos e mãos de outros.
estas considerações a dois tempos, como os motores afogados das motas
da minha infância, que subiam como sisífos mecânicos a rampa da rua, 
são apenas outros reflexos da preguiça que nos anima, animais contentes
e enfartados, sem grandes problemas, que precisam de se confundir
para se sentirem um pouco mais vivos. o amor que escrevo, a minha forma
de amar ou de explicar a confusão do amor, não é um axioma, muito menos
é verdade: são palavras alinhadas, uma construção que se pode encher
de ar ou de água, de gritos ou suspiros; é um balão que toma a forma-leitor
e que fala (quando chega a falar) da confusão, da falta de certezas, 
dos caminhos que se tomam, sentidos na flor da pele ainda jovem, 
coisas que todos sentimos e que eu limito dentro do alcance destes signos. 
se tivesse de fazer da minha poesia uma só imagem, escolheria o branco,
a saturação de tudo, a presença de tudo no exagero da luz que cega, 
que corta, que magoa, que esconde. explico ainda melhor, escrevo 
para esconder quem sou, as certezas que tenho, para explicar os medos 
que nos conduziram a tudo isto, a esta confusão de formas e sentidos.
posso também dizer, não me procurem no que escrevo. são fragmentos
que nunca conduzirão a quem sou mesmo - porque sempre um rosto
reconstruído é mais um rosto falseado - acrescentamos muito mais de nós
do que da verdade a que tentamos, sempre, agarrar os nossos receios.

1 comentário:

Strawie disse...

" Não há factos eternos, como não há verdades absolutas".
Nietzsche