26 dezembro 2012

Nino


é uma frase fraca, mas é a verdade:
as circunstâncias da morte não me deixaram
dizer-te adeus. estar a teu lado a segurar-te 
as mãos que tinham perdido toda a força, 
que lentamente se tornavam lisas planícies
que olhavas todos os dias sem uma palavra.
tive de escolher entre confortar-te a ti ou cuidar 
da confusão e dor da minha mãe, lágrimas
que irromperam demasiado rápido à superficie.
olhei melhor e pareciam ter estado sempre ali.
a minha mãe tão velha e frágil no âmago
deste turbilhão, o pai dela, meu avô, homem forte
que pegava em mim ao colo aos 80 anos, morria. 
o corpo ruía frente a nós e não havia tempo para nada.
tive de confortar os vivos, dizer-lhe suavemente
calma, fizeste tudo o que pudeste. ele sabe.
não podes fazer mais nada. e na minha boca soavam
mal estas palavras, simples como um desenho de criança.
minha mãe dizia-me acho que o teu avô está a morrer.
e dizia calma paizinho, respire. calma. está tudo bem.
como quem embala uma criança assustada.
nas paredes pintadas da casa estava presa a tarde.
amarelo de outono frio e a sombra do que foste
correu veloz em direcção a uma parede sem saída.
sombras velozes na confluência do tempo. o médico, 
que fui buscar à casa da irmã de quem desconfiavas
pela sua religiosidade algo excessiva, dizia 
não podemos fazer mais nada. resta-nos esperar 
pelos momentos finais. depois saiu. tinha algo.
os vivos têm algo e a morte é sempre inesperada.
dei-lhe vinte euros pela notícia. não há nada a fazer.
não consigo enquadrar o terror destes momentos
com a pessoa que sempre conheci: a confusão, 
os ruídos pesados da respiração que enfraquece, 
a minúcia gélida e inumana do médico que te examinou, 
o som do corpo agitado sobre o colchão e os lençóis, 
o choro e um silêncio enorme que parece abraçar tudo.
saímos por uns segundos e tu deixaste de ser. 
e deixou de haver tempo para te perguntar como estavas, 
para me dizeres o poema daquele fado premonitório,
para me explicares como se trata a madeira e o ferro,
para me contares como a vida sempre se desenrola.
os rostos silenciosos espalhados pelas paredes frias
observavam-me a olhar-te do fundo da cama enorme
para ti e para a tua recém-reencontrada leveza. a morte
é uma coisa que nos muda. reconhecia-te os traços, 
mas já eras outro. como explicar, avô? já ninguém 
poderia tocar-te, sabes? a pessoa escondida
dentro do corpo e inexplicável pelos dados biográficos
tinha desaparecido. ficaram objectos marcados 
pelo uso que lhes deste, texturas aplacadas pelo rigor
das tuas mãos, memórias, coisas escritas, sorrisos 
esquecidos em fotografias a preto e branco. coisas
que nos conduzem a ti, mas faltas tu nelas. equilíbrio.
e agora que já passou um mês continuo a ouvir a tua
saudação "oh nino!!!" quando ainda me vias. não me 
esqueço, apesar de não te ver e não te conseguir falar,
e por isso escrevo estas palavras: para tentar entender
o que aconteceu e para dizer que quando terminaram 
as dores dos joelhos, nas costas, o peso de uma vida 
de trabalho duro e suor, havia pessoas à tua volta
preocupadas com a vida que sempre foi tudo para ti.
restaram estas palavras, construção sem cimento 
que não é poema, não é memória, não é nada. 
sou eu, completo, que deixo abertos os alicerces deste dia.

1 comentário:

cores e outros amores disse...

uma única palavra: soberbo.
(é estranho como a tristeza pode ser um alimento tão nutritivo para as palavras)