18 junho 2013

Fear less. Love more.

Não sei o que escrever sobre o amor. Só me ocorrem lugares-comuns sobre comédias românticas, romances de cordel e egoísmo. Acabo sempre por expressar a minha desilusão pela incapacidade geral das pessoas em viverem os seus sonhos, em se esquecerem de quem são, em abandonar o orgulho, o bom-senso e os costumes rotineiros de uma vida para viverem alguém, o que para mim é cada vez mais uma das poucas coisas que, efectivamente, valem a pena. É mais fácil nos filmes, é certo. Os argumentistas tomaram cuidado para criar ilusões trôpegas, pequenos camiões emocionais que passam por cima de todos os que se cruzam, coleccionistas de solidões e de personagens com defeitos inultrapassáveis, mas cómicos. 

Amei pouco. Disse amor poucas vezes a poucas pessoas. Sou antiquado nesse sentido. Apesar de ter crescido com a mesma dieta de filmes americanos, "love" sempre me pareceu diferente de "amor". Nunca gastei muito essa palavra. Da última vez que a disse, disseram-me para ter calma e perguntaram-me o que vale essa palavra? Se já a tinha dito antes. Disse-lhe que sim, mas que não a disse as vezes suficientes para ela estar gasta. Depois ela foi-se embora e nunca soube o quanto era diferente o meu amor por ela. O quanto era especial e única. Mas é sempre assim nas comédias românticas. Como seria diferente aqui?

Explico: estava partido. Tinha deixado de acreditar que o amor é possível quando nas conversas, nos gostos, nas expressões apenas se pressente uma vontade vaga de posse, de fuga à solidão. Ferramentas humanas de preenchimento de noites solitárias e camas frias. Superficialidades e desconfianças. E depois voltei a acreditar. A reencontrar-me num centro de mim que estava fechado há muito. Voltei a saber que não me é suficiente o sabor desconhecido da pele, a excitação do sexo - tudo o que for menos que uma iluminação não me chega. Olhar uma pessoa, única, e sentir o mundo a explodir por dentro. Sinto-me uno agora. Sei que temos pouco tempo aqui e sinto-me velho e antiquado. E estúpido porque sei que não sou assim tão velho, mas sinto o corpo a abrandar por dentro e estou aqui a escrever um texto sobre o amor, sem saber os motivos concretos pelos quais o faço. E esforço-me para que isto não fique com aquele tom moralizante que odeio. 

Vi esta frase "fear less. love more." escrita hoje nesse propagador de banalidades que é o Facebook. E se tivesse de escrever uma frase para dizer a certas pessoas, especiais, era isso que diria. Para umas em tom de desculpa, porque ou fui uma criança imatura e tive medo - ou fui um estúpido e fugi do passado e do presente e do futuro possível; para uma outra, agora, única só para mim, para que compreendesse que ainda há tempo para deixar as longas tardes de domingo soprarem quentes sobre os nossos corpos imóveis no sofá. E isto sim, são só palavras - porque o que eu queria dizer é muito mais do que isto, mas não aqui. For your eyes only, quando quiseres. Entretanto terei de aprender a viver com a ausência, as sombras de sombras em que se tornam as memórias. 

1 comentário:

Joana Amoêdo disse...

Quem escreve bem um dia, escreve bem em todos. Belo texto! Fazes bem em continuar a catarse pela escrita.