as minhas mãos foram feitas para mexer na terra:
largas espátulas e rudes - frágeis como ramos de osso.
contudo, não é terra o que toco, nem mãos me agarram
enquanto tropeço e caio. os dias passam e este cheiro
agarra-se a mim: indelével rasto de erros, mosto; peso
nado-morto sobre as costas como um mundo impossível.
tento alcançar uma sombra, a promessa de um ramo,
enquanto as águas sobem, mas a fome fica por saciar,
a sede já queima e o corpo cede sob o peso húmido.
através de mim sorri a noite, a passagem do tempo
- a ausência de vozes amigas à volta da satisfação
das mesas de longas toalhas brancas e sorrisos -
trepadeiras e árvores sobre os esforços de muros.
estas são as melancólicas memórias de outros
de que já fui feito e as eternas possibilidades
de um novo dia: mundo sempre reconstruído
em barro e água, ponto fixo onde pés se afundam,
confundem os passos, caem todas as intenções.
as minhas mãos foram feitas para a terra, mas água
é o que as leva, lava, lavra. estão pequenas com o frio.
peixes comem-me os dedos, o barro prende-me os pés.
tudo isto pesa como uma mitologia transparente,
de um mundo por cumprir, de um dia por encontrar.
1 comentário:
o herói absurdo, ou metáfora à futilidade do «operário» actual? sempre mal, sempre igual.
bj
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