"We are all headed to the great stone garden"
Psycho Realm
"Da concentração nasce a sabedoria - e só a leviandade do teu espírito te pode aniquilar. Atenta bem como esta via em duas se divide: numa direcção tens a morte, na outra tens a vida. Pois bem: de maneira decidida escolhe a Senda que aumentará a tua sabedoria."
Buda, As Sentenças da Lei
Estranhas trips existencialistas nesta tarde de Terça-Feira, quinze de Maio de dois mil e sete. São doze e trinta.
O que se passa aqui?
Andei às voltas de carro, ontem, pelas ruas vazias procurando a mais ténue presença de provas que justifiquem este silêncio ecoante. Gaia está vazia de vida, Oliveira do Douro é um buraco de névoa e casinhas pequenas e bafientas, ruas estreitas, lâmpadas de mercúrio que pintam o ar de laranja. Agente Laranja a queimar pessoas - não - imagens há anos e agora e sempre. Amén!
A Laranja da faculdade e o seu cabelo e pinta intelectual falhada... enganos atrás de enganos e olhares que tentam ser provocantes de presença e apenas conseguem ser vácuos e insignificantes.
Desço até ao Areínho pelos paralelos húmidos. O carro derrapa nas curvas feitas com velocidade excessiva. Música alta, janela aberta para o ar se agitar em mim. Nenhuns olhos atrás das persianas - os máximos não iluminam as pupilas dilatadas do pessoal escondido na paragem desactivada. Fumam ganzas; falam alto; espantam a morte que sobe do rio. Só à noite ele volta a ser dourado nas luzes reflectidas. As luzes calorosas da roullote da Aninhas do outro lado da margem. Os salgueiros gemem sob a brisa... ou serão carvalhos? Caralho!
Não paro para pensar melhor - sigo e esqueço. Avanço lentamente (cuidado com as bandas sonoras!) até à praia manhosa que me aguarda.
Isto é assim: não é aqui que queria estar. Não estou como gostaria de estar. Não posso querer estar assim. É isto que sobra no final da noite. Quando toda a gente foi para casa e se guardaram as máscaras e as pinturas... uma praia deserta, um clio branco e fumegante e carros de vidros embaciados. Abanam-se com sombras frenéticas. Pelo menos, SE FOSSE COMIGO ABANARIAM. !TOTIL!
Eu vejo as pontes. Ao lado tenho uma quinta abandonada para onde ia em explorações com o meu pai quando era mais pequeno. Eu sofria de asma e os médicos acharam por bem que eu fosse andar e respirar ar puro. Os meus domingos eram passados entre árvores e pinhais em carreiros antigos... por entre restos de propriedades nas quais Abril deu a última machadada. Histórias de loucura e fugas para o Brasil. Uma igreja românica perdida entre Oliveira do Douro e Quebrantões. No meio do nada. Será que os ressacas ainda a usam? Era uma alegria essa quinta. Atrás de mim, quando isto não tinha saída, vinha lançar papagaios. Em 1987, 1989 um magnífico papagaio vermelho e amarelo; grande; dia de muito vento e linha de pesca de '80 mm. Ele voava lindamente enquanto eu corria à volta do Toyota Corolla cinzento metalizado. Depois, mais tarde, ia morrendo afogado na Pedra Salgada enquanto os outros miudos fugiam assustados. E o rio inalterado onde o meu avô nadou há sessenta e oito anos atrás. Agora estou eu aqui, à distância - do tempo e dinheiro para uma instrução - do meu avô com a quarta classe mal tirada; que aos cinco anos guardava animais nas quintas onde brinquei; que fez projectos que engenheiros se negaram a fazer e disseram que não iriam ser possíveis; do meu pai, próximo e tão diferente e cansado pela vida e pelos stresses, pelas responsabilidades, pelas gerações que passaram entre eu e ele.
Estou aqui e vou fumar um antes que a música acabe e vou ver as pontes e sentir-me humano: próximo de tudo, separado de todos. Não quero voltar a casa agora quando sei que vou
encontrar a ausência,
o reverso da tua presença,
o perfume das curvas do teu corpo na cama feita
e desfeita à pressa no chão e tu não,
fluída poesia de quem ama e faz do amar uma forma de perfeição.
Aqui sou unicelular e real. Não há enganos: apago a luz e desapareço fundido no interior do metal. Fumo. Permaneço alheio às mãos e ele aparece feito e aceso enquanto pensava. Agora resta-me ouvir a música, recostar-me, evitar adormecer. Pensar no lar que permanece um sonho, nos amigos perdidos nas noites dos sentidos, nos amigos encontrados. Nas faces que permanecem anónimas em mim enquanto há alguém que no mundo se agita atrás de um balcão e trabalha até à exaustão, enquanto homens e mulheres fogem da vida que tinham, enquanto crianças choram de barrigas vazias, enquanto políticos nos alimentam de mentiras. Será que alguma vez reconhecemos alguém através das fronteiras cavadas pelas palavras, nas sentenças das acções? As pessoas e a face lunar... a ausência de iluminação pública na noite social. Contos e mais histórias de trips de sobrevivência, "acabar com o próximo antes que ele acabe comigo": viver governado pelo medo do estranho numa superioridade deífica de quem defende e foge à consciência - um deus medroso.
O paiva está quase no fim. São horas de deixar de fugir. Voltar para casa e dormir. Esquecer.
Ligo o carro. As luzes. A ponta voa para o silêncio e as memórias fora da janela. Embraio e destravo. Fui.
E é o dia seguinte e estou em Ahmed, um kebab à minha frente, multiplas cervejas e uma aula à minha espera. Sei que vou lá chegar já ligeiramente bêbedo e é terça e o negócio às terças é sempre fraco. Que conceito básico e estranho: "TERÇA-FEIRA". O que é diferente na textura deste dia para o de ontem, para o de amanhã?
O enorme kebab já foi... como um dos desaires da idade adulta que têm de se enfrentar sozinho e cheio de força. Ando saudosista como chiquinho, respirar o mesmo ar descomprometido dos longos relvados: amigos... Ando pela cidade à procura: faces conhecidas para alegrar a malandragem.
Enquanto Ahmed agita o mundo que vive nas caves do seu frigorífico acabo de beber. Todas as coisas boas e o seu fim: tenho a aula à minha espera - uma aula sobre o significado do insignificante - e uma tarde demasiado longa para gastar.
1 comentário:
Grande e bela trip exitencialista zé!!! naquela capela românica pediu o meu velhote em casamento à minha velhota, vê lá que puta de coincidência!...
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