Não há espaço para dúvidas, hesitações, questões.
Há que agir, agitar, acordar as forças ocultas e fazer
- ser homem, deixar de ser criança.
É assim que tenho vivido os meus dias: sem espaço para a contemplação de um beijo, para o silêncio de um abraço. Esperam que eu seja uma máquina avulsa, algo que se tira do bolso e fica pronto a agir. Máquina assentimental, máquina fria, máquina automática como nunca poderei ser.
Trabalho, não me pagaram o último mês... todos os esforços para a minha evolução me parecem inúteis... não conheço ninguém que me possa orientar no meio; os meus trabalhos infantis nem em escritórios ficariam bem: obra de ninguém para ninguém... obras de nada retratado e assegurado - o nada de que se foge com objectos que acabam mortos em gavetas. Dizem-me para ter paciência: para escavar o meu orgulho até que ele deixe de existir... que estas situações são normais, comuns até, que em todo o lado está assim.
Eu deixo andar por que é essa a minha natureza... irá resolver-se, irá passar, irá ficar melhor... enquanto isso o tempo passa e eu estou cada vez pior: mais distante, reencontro a solidão onde escondo a vergonha da minha estupidez... a minha inabilidade em lidar com o mundo.
Há dias em que não me apetece decidir: quero apenas ficar em casa, olhar o tecto, deixar o mundo passar ao lado e tentar não me queimar na sua cauda incandescente... tento a fuga a qualquer decisão que me tentem obrigar a tomar... mas há a tirania daquele obejcto que nunca desligo e que toca e me chama e me diz que devo estar noutro sítio, noutra hora, que há desejos que devem ser cumpridos sem cumprirem... Já passei demasiadas noites só: o olhar que olhava, há muito partido, segundo plano de mim no escoar da madrugada...
Há momentos em que não quero tomar decisões, reorganizar a minha vida num acesso de egoísmo que revejo milhares de vezes, mas que me negam... ninguém espera que um fraco seja capaz de decidir. Por isso as reticências... a incerteza de como as coisas se completam... onde começam e acabam os dias, as horas que tento partilhar para ouvir "não"... há sempre outro espaço, menos para mim que aguardo, obediente, o chamamento.
A cada dia que passa escuto os passos dos meus sonhos a afastarem-se... a acenarem em direcção ao cais em que me encontro. E eu, estupidamente, vejo-os partir incrédulo enquanto fico mais vazio, nú, desinteressante. Apenas mais um falhado... um desperdício de materia.
Quase que era um génio; quase que todos os livros que li até hoje serviram para algo; quase que todos os meus esforços valeram a pena;
quase que,
quase que,
quase que...
Já chega de queixas: vou almoçar para voltar ao trabalho....
josé de arimateia, deprimido para além do conceito