Reconheço a casa de olhos cegos
E mãos trôpegas
Mas não me reconheço a mim
Quando são as tuas mãos a ler-me.
Quando era novo era mais perigoso
Construir: os prédios cresciam suportados
Pelos andaimes, titubeantes florestas de metal,
E não havia linhas de segurança, nem obstáculos
Entre o desequilíbrio do corpo e a certeza da queda.
Para sobreviver
Só se contava com a dureza do corpo e da mente
Que se tentava matar com o vinho do almoço.
Caminhávamos livres pelos telhados da vida,
Olhando para baixo como deus,
Como deus entediados com o que ainda nos falta.
Hoje que sou mais velho e o mundo tem mais medo
As obras são um formigueiro organizado e seguro.
Os corpos escravos estão presos ao prédio que cresce
Com o seu sangue e suor; barreiras de segurança brancas
E vermelhas impedem o desequilíbrio ou a escolha;
Os andaimes estão firmemente presos às paredes
E o lixo é conduzido por condutas para a reciclagem.
Só nos resta, no meio de toda esta eficiente rapidez,
Encher a mente com o nada, afogar-nos em vinho
E esperar que a tarde seja rápida
- E que a segurança da queda ainda tarde no corpo impreparado.
1 comentário:
Muito bom!
Enviar um comentário