20 outubro 2009

Pergunta-te

Pergunta-te:
porque continuam as autoestradas
cobertas de sangue? porque somos
dez milhões seiscentos e dezassete mil quinhentas e setenta e cinco
pessoas diferentes e só pediram seis milhões de vacinas contra a gripe A
e destas só chegaram três milhões? e o que são
as vacinas? quem nos ensinou a temer tão rapidamente?
quem será escolhido, fora da retórica da assessoria pública, 
para beneficiar com tudo isto? quem morrerá, assim, a frio
e em redondas palavras que passam inexpressivas ao lado da dor?
quem paga o meu medo? o nosso medo? (o medo de todos para todos
- o supremo bem democrático; o valor televisivo.)
quem paga as mãos vazias e o medo dos meus pais? quem nos comprou? 
a quem pertenço? que desinfectante devo usar para limpar a minha pele do medo? 
que me inocularam? estarei mesmo em perigo? precisarei mesmo de recear 
a minha sombra? serão todos os estrangeiros terroristas? e se forem, 
será que o primeiro-ministro inglês é? e o barack obama? e o berlusconi? 
o que fazer a tanta frustração, aos cadáveres de mim que apodrecem como sonhos
enterrados em pântanos? solitários fósseis numa noite petrolífera, seremos apenas um bem 
económico, um material bidireccionado reduzido ao longo de uma vida a comprador 
e matéria-prima? que animais me alimentam? o que devo comer e o que devo pensar 
agora que ninguém me diz nada? quem sou? o que sou agora? o que serei amanhã? 
de onde vim? (de onde vim eu sei, e sei o que me trouxe - doi-me é não saber 
para onde me querem levar, em que espécie de monstro me querem tornar, 
frágil reflexo do teu rosto, e do teu, e do teu também quando olhas estas linhas 
feitas memória feita de perguntas impronunciadas e de desilusões. o círculo 
da nossa prisão vai a meio: será que quando o anel se fechar em volta do teu tornozelo
ainda te conseguirás reconhecer? terás medo de sair e do teu reflexo no rosto de outro?)
por isso pergunta-te:

terás mesmo motivos para confiar no que ouves, em tudo o que te fazem dizer e ver?

 e lembra-te das respostas.

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