28 abril 2011

903 para a praia

a vergonha apanhou o 903 para a praia
e deixou para trás a noite e o álcool 
e esta imensa vontade de derreter 
esta pele, os olhares afiados dos betos
e a minha falta de dinheiro crónica.
que doença esta - e estes dias e este…
filtro entre os sentidos do entendimento
e a compreensão cerebral das coisas 
- turvo, como um mau vinho que corre 
pela curva do copo e mancha a toalha,
assim corro eu pelas costas da cidade
com o peso de todas as coisas nas costas.
sísífo de um cartão miserável, habituei-me 
a ver nas luzes dos candeeiros o sol
das minhas três da tarde madrugadoras,
o castigo por anos perdidos e tempo perdido
com pessoas e coisas e o amor e a entrega
e todas as coisas outra vez até tudo isto
significar um nada rigoroso - porque deixou
de existir, porque se condensou num nódulo
de carne no fundo de mim, longe 
da consciência da morte e da passagem.
cagar para tudo isto, meter a merda no poema
como uma espinha num rosto belo 
ou qualquer outra pedra na engrenagem:
o importante é meter a mão no bolso 
do mundo, por estes segundos breves,
e roubar-lhe uma mão cheia de oportunidades,
recuperar as esperanças que a vida roubou,
o brilho real do olhar e da novidade do futuro,
e ter 100 anos de perdão pelo furto.

2 comentários:

Anónimo disse...

Autocarros cada vez com mais numeros, cada vez com menos pessoas e cada vez em menor numero... como tudo...

josé ferreira disse...

agora vão todas de metro... é mais prático.