a vida é feita de coisas desaparecidas, de memórias
passadas. de imagens e vozes rompidas até serem
pó ou menos do que isso. muitas vezes, nem isso:
confundem-se todas, pessoas, vozes, os sentidos,
quando nos tentamos abrigar neles para seleccionar
uma só que nos tenha marcado mais completamente.
passamos entre tudo isto e tentamos acreditar noutra
coisa que não nos medos que trazemos dentro,
inconfessáveis, privados; distraídos deles pelo cacarejar
da televisão ou pelo lento zumbido dos computadores.
e a memória, essa coisa incompleta, devolve sempre
outros tempos: melhores, passados e iluminados
por uma luz mais perfeita que a do cinema. mentiras.
reconstruções do que foi à luz da tristeza do agora,
das incapacidades de todas as verdades, do apoio
basilar que nos conduz à crença de que é possível
recuperar dias assim, ter novamente a mesma paz,
mesmo quando já não vivem as pessoas procuradas.
e assim vivemos, sonâmbulos enganados sem vislumbre
de qualquer realidade atrás das pálpebras fechadas,
coladas pelas remelas da infância e pela solidão presente.
mas, quando olharmos para trás e recordarmos a liberdade
construída pedra a pedra, agora destruída cêntimo
a cêntimo para a fortuna de que não vimos nem as cores,
e as mãos que nos apoiaram e enviaram para a vida
com um abraço fraterno, queimadas por séculos de trabalho,
os paralelos das barricadas onde brincámos e a algibeira
vazia na incerteza do futuro e as nuvens escuras que correm
sobre as vidas de todos, podemos pensar que esses tempos
estão lá atrás, que são apenas mais uma memória irrecuperável,
uma alegria básica de uma infância maior do que o corpo frágil
que nos foi dado. mas não. agora é a nossa vez de esquecer
todas as maravilhosas mentiras e criar um mundo novo com
todas as oportunidades que nos escapam por entre os dedos.
1 comentário:
Reacção possível depois de acumular um monte de saliva nos lábios por ler isto tudo de rajada: =O simplesmente magnífico!!!
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