06 fevereiro 2013

Sem tempo para escrever


porque será que os poetas não escrevem 
sobre as mãos molhadas da loiça fria? 
também nunca lhes escutei nenhuma palavra
sobre os dedos gretados pela normalidade,
o cheiro a comida na roupa, as mãos sujas
do cheiro a alho e cebola, as cicatrizes da vida
regular e comum - como se no mundo todos nós 
fossemos ou criaturas de outro mundo; ou amantes
de todos os dias; ou animais políticos engajados; ou
apenas surrealmente doidos e inconsequentes 
no exercício de desconstrução da realidade. contudo, 
há palavras demasiadas e demasiado grandes
e, por isto, insignificantes demais para o mundo como é:
para regular a morte do amor, a limpeza da sanita no coração,
a pia entupida entre palavras e a língua, a economia entre
os sentimentos e o dia para viver amanhã, mais um sem fim
de horas para nada… para o crescimento do desinteresse
rodeados de estranhos familiares, talvez haja uns minutos.
e disto eles falam: da estranheza do viver, do exercício social,
da impossibilidade do contacto e da comunicação perfeita
- mas por códigos, ocultos nas sombras das letras, sibilantes
como quem não sabe do que fala e tenta parecer que sabe.
desconfio de poetas. escondem monstros dentro deles.
monstros inteligentes e selvagens que mudam e escondem 
veneno na saliva, na tinta que lhes suja os dedos, nos olhares
silenciosos para as coisas, nos silêncios arritmicamente
respirados que nos dizem a cadência do mundo:
"sim! sim! sim! três vezes sim! estou vivo - e não sei o que fazer!"
e depois vão lavar a loiça e ficam sem tempo para escrever.

1 comentário:

je suis...noir disse...

Até os monstros prcisam de amigos:)

Gostei da referência ao mostrengo que vive no mar...