porque será que os poetas não escrevem
sobre as mãos molhadas da loiça fria?
também nunca lhes escutei nenhuma palavra
sobre os dedos gretados pela normalidade,
o cheiro a comida na roupa, as mãos sujas
do cheiro a alho e cebola, as cicatrizes da vida
regular e comum - como se no mundo todos nós
fossemos ou criaturas de outro mundo; ou amantes
de todos os dias; ou animais políticos engajados; ou
apenas surrealmente doidos e inconsequentes
no exercício de desconstrução da realidade. contudo,
há palavras demasiadas e demasiado grandes
e, por isto, insignificantes demais para o mundo como é:
para regular a morte do amor, a limpeza da sanita no coração,
a pia entupida entre palavras e a língua, a economia entre
os sentimentos e o dia para viver amanhã, mais um sem fim
de horas para nada… para o crescimento do desinteresse
rodeados de estranhos familiares, talvez haja uns minutos.
e disto eles falam: da estranheza do viver, do exercício social,
da impossibilidade do contacto e da comunicação perfeita
- mas por códigos, ocultos nas sombras das letras, sibilantes
como quem não sabe do que fala e tenta parecer que sabe.
desconfio de poetas. escondem monstros dentro deles.
monstros inteligentes e selvagens que mudam e escondem
veneno na saliva, na tinta que lhes suja os dedos, nos olhares
silenciosos para as coisas, nos silêncios arritmicamente
respirados que nos dizem a cadência do mundo:
"sim! sim! sim! três vezes sim! estou vivo - e não sei o que fazer!"
e depois vão lavar a loiça e ficam sem tempo para escrever.
1 comentário:
Até os monstros prcisam de amigos:)
Gostei da referência ao mostrengo que vive no mar...
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