09 setembro 2009

O homem em construção

Dentro de nós cresce o ódio 
Enquanto nos oferecemos à solidão
Que alquimicamente se mistura nas noites
Tecnológicas. As televisões e os telefones 
E os computadores agora já não se desligam:
Apenas nós dormimos, máquinas de carne, 
Antigos modelos de barro que são nada
Do que eram suposto ser. Caminhamos e somos
Ocos por dentro; se nos falam ao coração 
As vozes ecoam dentro até desaparecerem 
No ar que uma vez vibrou. Quem somos agora?
Para onde fomos todos e quem nos roubou 
A luz dos olhos, o ouro das acções puras,
A sabedoria que nos trazia dias melhores?
Hoje os apelos são intermináveis: compra, compra!
Vende-te, vende-te! Esquece tudo aquilo que te torna
Humano aos teus olhos e limita-te a existir agora que sabes
Que a felicidade é impossível e que o passado existe
Apenas nas tuas memórias, que vive na tua pele agora
Que acordaste de um longo sono e estás morto, ácido 
Por dentro como as poluídas plantas que mordemos 
Para existir. Os dias não te trouxeram o conhecimento 
Que esperavas; a idade apenas te embruteceu e nada te deu
- Apenas a confusão que agora te tornou outro, terrorista do nada.
Não irei votar. Não acredito nas mentiras que todos eles nos vendem
E sei que o voto é útil para manter o status quo de quem tem 
Sobre aqueles que trabalham para comer as migalhas sob a mesa.
Ainda alguém acredita que Eles estão aqui para cuidar de nós? 
Para nos trazer o bem e o equilibrio económico? Os meus pés 
Cansados cheiram melhor do que esta democracia plutocrática
Quando estão esticados depois de mais um dia de desespero 
Em frente à televisão - e pela janela o fumo da linha do horizonte 
Em chamas que depois serão afogadas em cimento e lixo e cataratas
De merda que tombarão do topo dos vossos prédios desabitados
Para asfixiar todas as cidades e os povos na sua estupidez monetária.

Tenho as mãos cheias de cicatrizes e palavras. Estão sujas e nenhuma 
Água as poderá limpar. Escolhi estar sozinho antes que a morte separasse
O que tempos melhores uniu. Sei agora que nada mereci e tudo tive durante anos.
Vivo a vida calma e desafogada e depressiva do mundo civilizado. Estou sempre
Contactável, sempre presente para todos quando ninguém se importa onde estou
Ou quem sou ainda entre uma inspiração e expiração - sou outro. A construção 
Do homem é assim: passos lentos e uma morte diária. A infância lavada do rosto,
Os olhos que se enchem de nada, de coisas incumpridas e da ira da impotência.
Portanto esquece-te e trabalha: afinal de contas, és um homem desabitado.

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