É duro viver nesta economia de sentimentos.
Passar os dias acordado a contar o dever
E o haver do que se dá e do que se esconde
À minúcia da fiscalização; reclamar quando
A altura se apresenta correcta, oportunidade
Única para melhorar uma situação impossível.
Há que ter tudo anotado em cadernos negros
E sujos como a nossa consciência, pronto a ser
Apresentado quando chega a ordem e provar
Que, no fundo de nós mesmos, somos inocentes.
E, quando chega a noite, levamos as mãos
Aos bolsos vazios e, para nos distrair, apanhamos
Pontas do cinzeiro frio para fumar o tempo
Para longe. Lá fora é Inverno e está frio e tentamos
A reaproximação à ilusão em planos que ficam
Por cumprir. A descoberta e a sua estranheza:
Encontrar-me cobarde, fraco dia após dia pensando,
Repensando e reencontrando o cérebro no lugar
Do coração e o coração no cimentado círculo exterior
Da circunvalação, perdido. Sei o que é andar aí,
No mundo, procurando um lugar certo para a felicidade
Ou para poder viver; alguém que nos encontre
Quando os dias terminam e o ânimo se perde no sono.
Quando escapo da consciência e a última imagem do dia
É um quarto enfumarado, silencioso, e a luz que se tem
É a de um monitor que traz tudo menos o contacto,
Sei que depois de tudo se oferecer ficamos de mãos vazias
E atadas, julgados por um tribunal invisível: algures,
Enganamo-nos nestas contas e o estado é um matemático
infalível.
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