à pergunta quem sou apenas posso responder:
um intruso. sempre. apenas. sem lugar. um
aluguer febril de respiração e espaço. penso,
mas não existo. não sei o que é ter vontade.
não me consigo exprimir, chegar às pessoas
que me rodeiam como máscaras estranhas
que não entendo. são poucos aqueles com
quem ainda consigo conversar. trocar ideias,
vagas como o mar que se desaba sobre mim.
sou outra vez uma criança e rolo sob as ondas,
confuso nos seixos, maltratado pelas rochas.
agora, nenhuma mão entra na água para agarrar
os meus braços soltos. não consigo flutuar. respiro
pelas mãos, quase que alcanço o sol. nenhum som
e a boca está aberta. o bruaaaaaaaa atroador das
ondas, os carros do outro lado da parede, paralelos,
existência no granito, na matéria negra do petróleo.
ninguém sabe o código, a mensagem é uma miragem.
2 comentários:
E de repente veio uma urgência em reler um livro que recordei agora mesmo, "O erotismo", de Georges Bataille. Há de estar algures cá em casa, onde, onde? Deixo-te uma wiki-coisa para perceberes do que falo. Desconfio que já o conheces.
"Bataille sustenta que o consumir, e não o produzir, que o despender e não o conservar, que o destruir em vez de construir, constituem as motivações primeiras da sociedade humana. [...] Ao sistematizar a sua teoria geral da circulação da energia sobre a terra, sempre numa espiral ascendente que dá o caráter à nossa sociedade, Bataille revela a influência da ideia de dádiva, onde ele nos mostra que existem outros princípios de troca fundadores da sociedade, onde impera a qualidade, como o sacrifício ritual, e que nos vinculam ao que está além do humano. Rejeitando as teorias de Keynes, bem como o marxismo de juventude, Bataille construiu o seu pensamento insistindo na hipótese de uma abundância inevitável e inaceitável no mundo, cuja acumulação conduz à morte.
Em "O Erotismo", Bataille continua essa linha de estudos. Ao encontrar no erotismo a chave que desvenda os aspectos fundamentais da natureza humana, o ponto limite entre o natural e o social, o humano e o inumano, Bataille vê-o como a experiência que permite ir além de si mesmo, superar a descontinuidade que condena o ser humano: "Falarei sucessivamente dessas três formas, a saber: o erotismo dos corpos, o erotismo dos corações e, finalmente, o erotismo sagrado. Falarei dessas três formas a fim de deixar bem claro que nelas o que está sempre em questão é substituir o isolamento do ser, a sua descontinuidade, por um sentimento de continuidade profunda".
Espreita ainda: http://notasdeleituras.blogspot.com/2009/02/georges-bataille-fragmentos-de-o.html
Abraço. Ainda que descontinuado, abraço.
eros e thanatos de mão dada, mais uma vez. hoje em dia, na nossa modernidade, deveríamos inventar um conceito para a morte operada no ser a cada segundo que passa. as coisas tornaram-se assim tão rápidas.
visto de outra forma, esse sentimento de continuidade profunda poderia ser entendido, a outros olhos e contextos, como sendo "amor" - esse derramar do eu no outro de forma a criar um novo ser, nem um nem outro, mas uma mistura contínua de ambos onde as fronteiras se tornaram como fumo.
quanto ao link que deixaste, concordo a espaços com o que lá diz: que parte do êxtase do sexo está numa espécie de morte ou degredo dos conceitos entendidos como beleza, harmonia. ou simplesmente em saber que a posse, possuir alguém (e isto é válido para ambos os sexos) nos dá liberdade para destruir a imagem projectada, entendida pelos outros. Será isso a intimidade? viver com alguém sabendo o que se esconde por detrás das máscaras? ou finalmente alguém para além de sade intui que o sexo e a sua simbologia, mais que corporal, é intelectual também. é uma projecção da vontade de poder individual. é uma criação consciente passível de admiração. é um processo comunicativo. é uma afirmação da liberdade - para possuir e ser possuído, longe de moralidades bacocas e religiosidades torpes.
para terminar, gostaria de terminar por dizer que, não tendo lido o livro, o vou procurar e tentar encontrar. fiquei curioso!
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