Mulher:
recosta-te no meu bolso
e sê a moeda do meu contentamento
dá-me o calor que a falta de tempo
me nega;
hoje tempo é dinheiro
e um segundo meu é demasiado caro
para esta ralé dar valor à vida desperdiçada.
Dá-me o calor e a carne que o dinheiro deles
não consegue comprar
o sono frágil com que descansar a alma
e a carne, a súmula do corpo cansado
desta vida sem o toque de midas,
sem o sopro que faz encher o fole da carteira
apenas o fole das palavras,
os toques incompletos da língua nas ideias
- a falha semântica
da terra escrava que esmagamos
buscando sustento para o amor.
Mulher,
sob a forma deste nome tão puro
como a frieza que lhe adveio
não encontro salvação possível
para lá de ti: do abstracto
transformado na minha abstracção concreta
procuro-te como ícaro procurou o sol.
Aquece-me a cera que me esconde
dos olhos, de todos, de mim que me arrasto por aqui
nesta minha face vincada como esta carta
que te escrevo. Aproxima-te, mas não me toques já,
deixa correr a quente espessura de um encontro,
o concentrado dos sentidos desesperados
na negra e visceral cadência
do meu sangue poluído de solidão.
Agita-me estas palavras no silêncio dos teus olhos
até que de mim saiam as chagas, a pobreza
de um toque entre corpos esquecidos pela noite
varre-me a crise dos sentidos multidireccionais
até que se evaporem as matemáticas
na agoural construção do tempo.
mais uma produção conjunta com este blog
Sem comentários:
Enviar um comentário