As horas são contadas
e esquecidas num guichet
desinfectado segundo os preceitos
da higiene dos locais públicos.
Neste lento cálculo do porvir,
o tempo pesa, incorporiza o medo
na ilusão psicológica usada
para inventariar
o ócio, o amor, o incerto
tique-tac da nossa fealdade crescente;
Esta fixação
esta enorme flor de fel que desabrocha
e morre cada dia, todos os dias
cobrindo os corpos com a cinza incompleta do medo.
Conheço as finas dialécticas da linguagem
de rua. Sei o que vais pensar, dizer
ou fazer com as poucas palavras que tens
para definir o mundo, para cantar a sinfonia
da existência. A minha música, por outro lado,
não é audível a qualquer um.
É mais profunda, entrega-se à noite
a corpos indiferentes que a queiram levar
e mente.
A tensão nos músculos destas frases
incompletas é a ilusão da compreensão
é uma linguagem oculta,
é uma língua de nada
iluminada pela dor.
E qual a palavra para o tempo?
A vida está parada e silenciosa
como um mecanismo avariado
o tempo,
esse relógio incerto,
já não conta a passagem.
Cimento, ferro, olhos frios olhando
o mostrador vazio e (ainda) incompreensível.
Os braços, esses frágeis ponteiros
estão caídos, desolados.
Para eles é tarde, já nada esperam,
porque sabem que as promessas apenas fazem
abrir os olhos às crianças.
Estamos mortos e olhamos como vivos
o maquinismo morto que nos rege;
os astros mecânicos que levantam o sol
a horas certas, que nos tapam os olhos
quando chega a hora da noite.
O que fazer quando a vida nos mata
e os sonhos não arrancam?
De pé numa fila cheia de pessoas
iguais a nós,
com a mesma impossível face,
com o mesmo corpo quebrado e inconsequente
com as mesmas mãos inúteis
- e o mundo parece não funcionar
do outro lado do espelho do guichet.
Que se desenganem aqueles que pensam ser fácil
viver assim, incerto, inseguro,
nenhum sítio a que chamar lar, cova, casulo;
a algibeira permanentemente vazia e os sonhos
a arder nas mãos abertas.
Não
resta-nos mais do que deixar os olhos adiar
os horizontes nas impossibilidades da lógica
e a sachola da fome cavar os caminhos
que roubam a água aos navios da infância.
Está na hora de deixar a brincadeira
e começar a fazer de conta
que a felicidade existe.
É simples: segue o conselho do governo
- envelhece
e morre silenciosamente sem nunca teres sido.
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