24 abril 2009

A verdade

Ainda ontem
recordas
havia tempo
para os dias e para os gestos
completos.

Recordas
quando na janela
fechada
se lia todo o mundo
e as horas eram
insignificantes como pegadas esquecidas?

A luz escorregava
pelo teu corpo
dúctil água das tuas formas
e eramos simples
e felizes.

O amanhã era uma sentença
sempre adiada.

Hoje estamos presos
e empregos tomam conta
dos presentes contrariados
e das futuras promessas
esquecidas na névoa terminológica
dos contractos.

A verdade,
se ainda podemos falar assim,
é a crise e as respostas
dos olhos deprimidos frente ao espelho.
A verdade,
são as queixas ouvidas
as vidas perdidas
anónimas nos vagões que nos transportam,
organizado gado, humanos simplificados,
numerados
confortavelmente acondicionados
em confortáveis carruagens condicionadas
na escravatura dos dias,
nas regras e ordens
que lavraram para crescermos,
tolhidos e infelizes,
rodeados de coisas
e da felicidade ausente.

Agora dorme.
Aproveita a viagem que te leva
a lado nenhum
e recupera as energias para correr
e manter os horários inflexíveis
e a ordem
de saltar de sonho em sonho
sem nada ter
na falsa promessa do crédito.

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