Nem nunca tiveram tempo para me mostrar
As artes e as letras... estavam ocupados,
Trabalhavam de sol a sol para me levar
O mundo e a comida e o tecto e as paredes
Completas da casa. Lembro-me de brincar
Aos piratas com o meu pai, correndo em
Busca de tesouros sob a mesa da sala;
Transfigurando o tapete rude em mar
E o cotão em sargaço onde o navio
Da imaginação se prendia, perseguido.
Da minha mãe, lembro-me das mãos àsperas
De mil águas, mil roupas e duros esfregões
De palha d' aço com que se areavam os tachos;
Lembro-me das suas mãos e do cheiro puro dos lençois
Da minha infância; lembro-me da sensação dessas mãos
Ásperas contra todos os ditames da moda e do bem-estar
Sobre os meus pulmões inflamados em noites de insónia irrespirável;
Lembro-me dos seus cozinhados e da sua enorme tristeza, engolida,
Por se saber inteligente e assassinada na sua geração pela lição
De salazar: sempre limitada à função de esposa e mãe.
"- Minha mãe: já sei varrer a cozinha, arrumar as cadeiras e limpar o pó. Deixe-me pôr hoje a mesa para o jantar.
- Está bem, minha filha. Quando fores grande, hás-de ser boa dona de casa."
Nunca me leram poesia, não, mas nos seus olhos brilhava o mundo
Real; das suas mãos saía o pão e as uvas e o conhecimento frágil
Da natureza; o auto-conhecimento dos músculos onde nasce a vida.
Nas palavras vem montado o mundo e a sua morte - a compreensão
De que será sempre impossível medir o valor real do amor, da vida,
Da cor e do calor, o sabor dos morangos eternos da juventude.
Com as palavras, começamos a compreender que flutuamos
Sobre uma inútil teia de significados imperfeitos que nada explicam:
E isto sim é um inferno sobre o qual nenhum poeta tinha ainda perdido
A doentia madrugada. Por tudo isto, e por muito mais que ainda fica por dizer,
Nunca terei filhos e, se os tiver, queimarei todos os livros, aniquilarei todas as palavras
Para que eles possam manter a sua infância perfeita para sempre.
escrito com alguma raiva para com este texto
3 comentários:
Das apneias mais fortes que alguma vez li! :D grande abraço!
A mim também me aconteceu o mesmo: os meus pais nunca (me) leram poesia. Daí a ficar-se com "raiva" por isso ter acontecido com outros é que já me parece um bocadinho exagerado.
caro lp
lamento que tenha compreendido isto assim... se a minha raiva fosse para o facto de não me terem lido poesia seria sinal de que teria, no mínimo, falta de algo mais interessante em que pensar.
esclarecendo, e como disse no comentário que deixei ao texto em questão, a raiva vai toda para com o delírio aburguesado que está na origem desse texto. de facto, e por muito bela que seja a imagem de pais a lerem aos seus filhos, isso não é uma condição sine qua non para que se desperte o amor das e pelas palavras. e como deverá admitir, actualmente são poucas as pessoas com o tempo disponível para isso - há que "criar" o dinheiro que traz os livros.
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