30 janeiro 2013

Não se passa nada


os cães ladram e não se passa nada:
o arco desta travessa arqueia ainda,
o rio corre como um esgoto bucólico,
a mesma luz na janela fechada. 
o telefone não vai tocar hoje. nenhuma
voz vai atravessar este vazio. os ecos
que me chegam não trazem nada bom: 
as paredes dizem que o presente esgota
placidamente as suas horas e relatam
confusões profundas dentro do interior
da minha cabeça calculadora negativa.
entretanto mais um dia escorre na torneira
e eu escrevo novamente na cozinha, 
costas para a janela doente, e sempre
o cigarro estúpido a queimar as horas 
a pensar sempre o mesmo: ninguém nos vê. 
não existimos. os espelhos não conseguem 
devolver aquilo que nunca possuiram.

os cães calam-se subitamente.

alguém desliga a luz.

não se passa nada.

1 comentário:

Anónimo disse...

é lindo...

(roubei)