12 maio 2009

Céus televisivos (1)

As horas já passaram, muitas. A maldita rotina dos dias. O que fazer agora que a noite caiu completa e a única companhia que tenho é a minha solidão? O computador, a televisão, o telemóvel, o silêncio eléctrico que emana deles no tempo que conto e que se acumula no completo descontentamento. Os segundos acumulam-se e nada parece crescer no mundo que agora é um animal em descanso.

Acordo numa selva de garrafas vazias... e a mesa à minha frente, à frente dos meus pés, está cheia de cervejas vazias, álcool entornado em cima do vidro do tampo, restos de tabaco, mortalhas encharcadas e maços amassados, desfeitos, queimados. O corpo dorido pelas horas de sono sentado regressa à vida, desperta lentamente. A boca está quente e morta. A língua dormente. Levanto-me Arrasto-me até à casa de banho e empurro o papel higiénico queimado para o lado, saco o sexo e liberto uma torrente turva na cerâmica húmida. O cérebro regressa à vida ao som de águas... Cataratas humanas... Sinto dificuldades em concentrar-me... A cabeça dói... existe e é perversa.

Onde estão as tuas mãos? Onde posso encontrar o teu corpo a estas horas nesta noite fria.. nesta primavera de destroços.

Estou mudo e olho. Parecemos todos.... monstros rápidos e ágeis. Humanóides frios. As máquinas não nos conseguem fazer tocar as pessoas. Fazê-las compreender a sua solidão. Dias passados na peneira: apenas pó do que não foi feito e se acumula. Olha-se em volta, em torno da riqueza material e circunstâncias várias que nos colocaram aqui, onde estamos, e não é no teclado que se encontram as pessoas; não é através do messenger que se consegue interromper o silêncio que martela as paredes. Penso nos dias, na sua maravilhosa sensação de plenitude – muitas vezes quando chego a casa tarde, oito horas, penso quando acordava e tinha todo o tempo, as horas não se arrastavam lentas e inertes plenas de acções marteladamente repetidas e decoradas. Eram perfeitas – a observação do mundo ao microscópio do olhar curioso, o maravilhoso do lanche de pão com manteiga e leite com café, claro. Fantasmas que não me largam e se repetem quando a porta que abro é a de casa.

Casa de três gerações – todo o peso do tempo sobre mim: os olhares de três gerações de pessoas reais e carnais a olharem os meus passos quando eu estou mais distraído. Por vezes receio estar a ser devorado por insectos. No pescoço; começo a sentir as suas patas e apetites vorazes. Depois a mão desengana-me do que o cérebro pensa e o mundo continua a decorrer normalmente, inocente dos pânicos mudos que nos comandam.

Tudo isto para dizer o quê? Que temos medo. Apenas isso. E que os medos se repetem e multiplicam e são os insectos vorazes que nos tolhem os movimentos. Demasiado tempo perdido a olhar para a TV. Para os sonhos que outros querem que tenhamos. Sonhando sonhos de outros em forma de pesadelo. A vida a passar.

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