Por mais línguas que fales
Falas sempre o dialecto
Das ruas que te criaram.
Neste mundo ou no outro lado,
Dele, trazes estampado na cara
O bairro que te viu crescer.
As pessoas que te moldaram
O sotaque cerrado,
O reduzido léxico do subúrbio
Em que todas as palavras são
O cinzento das paredes e das pedras;
E depois,
A enorme desilusão que te lançou
Em fuga,
Descrente e rude como o mundo
Que querias perder rapidamente
E que trazias estampado em longas frases
No distante rosto da tua face,
Agora estão perdidas e apenas te assombram
As noites em que tentas dormir.
Todos os teus amigos te deixaram
E esta noite é demasiado longa
Para a silenciosa depressão
De quem espera sem certezas.
Como um cego tacteias procurando
A solução que se esconde na noite
Eterna da máscara da tua expressão.
Não compreendes o que se oculta,
Docilmente,
À fineza do teu tacto superficial.
A ignorância –
É que o mundo, hoje, é utilitário;
E amanhã será ainda mais;
E a tua vida ainda valerá ainda menos.
Serves um propósito,
Iludes-te com a liberdade por uns anos,
E depois és despedido ao som de um piano,
Tu mais melancólico e triste do que as notas
- uma oitava abaixo do queixume.
De que te adianta esta fuga?
- ou sequer acreditas
que um dia serás considerado
um igual entre outros?
Esqueceste o que a escola te ensinou?
As lentas frases de silêncio;
As brincadeiras sozinho;
O espancar ou ser espancado
Com a inocência da infância;
O olhar paternal das crianças ricas
Ou amadas.
Por isso, toma o amargo dinheiro
Que ganhas a enganar o patrão
Com uma árdua ilusão de trabalho
E que não te consegue fazer esquecer
Ou apagar de ti o sítio de onde vens
E começa a poupar:
Conserta os dentes;
Areia a alvenaria do teu rosto;
Compra um novo edifício para o teu espírito.
Ainda assim, nunca conseguirás
Escapar aos tristes pesadelos
Que te abrem os olhos – e a boca muda.
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