“O mundo está morto.” “Os heróis desapareceram.” “A Verdade foi atingida: não é preciso lutar mais.” - São estas as mentiras que nos vendem numa realidade hiperdefenida que nos é comodamente entregue em casa para os nossos olhos vorazes se alimentarem. Tudo é mais verdadeiro agora que não conseguimos tocar em nada.
Onde é que tudo se confundiu? O tempo, a amálgama de horas, os dias e as noites dos nossos desejos, os desejos de outros feitos à nossa medida? Onde terminou a noção de tempo, a diferenciação de dia para dia para dia para dia – longe deste constante definhar diário e repetido (para gáudio de quem?). Possuir sem conseguir tocar... ter a ilusão da posse no bolso cheio e no cérebro vazio – no perfeito sonho do capital – e oferecer aos outros os pesadelos e medos que nos ocupam as noites; preencher a sua vida com a mesma malevolência com que julgamos o que os olhos vêem e o tacto não toca; morder a carne impoluta com os nossos dentes verdes e podres e a língua morta de quem não sonha. Enfim, dar um pouco de nós, o melhor, aqueles de quem mais queremos.
E ficamos surpreendidos por, no fim, ficarmos sós, na maravilhosa companhia dos nossos pensamentos mais íntimos. Sós com as nossas televisões! Sós com os nossos telemóveis! Sós com os nossos computadores ligados a todo o mundo via internet! Sós, longe da ideia de nós, longe da realidade construída no outro e do outro em nós. Silêncio apenas... e ecos.
E quem somos nós e os outros hoje em dia? O “nós” compra e os “outros” vendem? Sem “outros” que “nós” compraria? Quem de entre “nós” nunca... O outro apenas – o que existe fora das vozes na mente – quem se vê...
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