12 maio 2009

Céus televisivos (4)

E a existência parece ser apenas isto: a passagem de dia para dia para dia para dia... de fraco acontecimento em fraco acontecimento até ser apenas um grão de pó a flutuar para outra pessoa ver. Ou nem isso: memória apagada de um tempo irrepetível, para o qual não houve gravações nem registos – apenas o seu acontecimento. A rotina instala-se e parece que as coisas se fazem apenas para fugir ao tempo, ao recado de um encontro adiado. E mata-se o cérebro com tudo o que há... e o coração endurece-se com muita televisão e mau viver... e, quando menos se espera, já nada se sente – apenas se adivinha o sentimento que se tinha... mas já não se está certo nem disso.

De verdade em verdade vivemos uma mentira que nos entregam já feitas, bela e perfumada dentro de uma caixa de cartão reciclado feito das melhores árvores. Como escapar à consciência, ao saber que há pessoas encarregues de manter outras pessoas iguais a nós no lugar que ocupam através de uma calma requalificação daquilo a que se chama verdade? Vamos todos ligar-nos à televisão a horas certas, ver as notícias iguais entre todos, fazer parte de mais um produto económico que nos quer acéfalos e longe das reais razões das coisas. O milagre, hoje em dia, seria aflorar com os dedos a...

Esqueçamos as coisas todas e vamos trabalhar. Vamos ser felizes: o mundo rodopia e nós nele. Vamos ser felizes: o mundo explode, concentrado, e nós nele, mas longe da violência bélica. Vamos ser felizes: estamos seguros como crianças em asfixiantes braços protectores.

Espelhos... qual a sua realidade? Como viver comigo mesmo quando já estou farto de mim? Das constantes repetições dos mesmos falhanços... o não avançar como o proverbial insecto preso dentro de um copo de vidro (por outro lado, acho de um imenso romantismo tentar quebrar as prisões invisíveis que nos encerram). Livrar-me da dor de ser homem, o pensamento constante ali, mesmo à mão de semear, e passar a existir. Sem pensar. Longe de qualquer paradigma cartesiano. Longe de regras e motivos e formas de fazer as coisas. Apenas um átomo concentrado; puro de energia – real. Sinto-me uma ilusão: algo que podemos facilmente encontrar num qualquer personagem de telenovela ou anúncio que ensina como “não ser um jovem bem-sucedido”. O dinheiro não me corre no sangue nem na sede. Tenho dias em que não me apetece falar com ninguém. Em que “eu” sou uma presença demasiado íncomoda para mim. E não consigo escapar...

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