E o dinheiro também é sempre necessário na prisão da sua necessidade. Afinal de contas, como ser uma pessoa melhor sem os objectos certos? Desprendidos perante amigos e família – sem os conhecer quando isso perturba a imagem projectada do nosso produto e arruina o nosso valor de venda. Que merda de pessoas que habitam neste mundo arruinado por um egoísmo voraz; de precoces ilusões; de uma inqualificável cegueira. Como crianças alimentadas apenas de açúcar os vossos dentes apodrecem e o vosso cérebro definha – mas que belo é o vosso exterior. Brilham de carros; brilham de jóias de pechisbeque; brilham de telemóveis; brilham de roupas e acessórios fantasia jogador de futebol ou fantasia tia ou fantasia corrector de sucesso; brilham de férias em destinos exóticos e raramente impronunciáveis onde (alguns) comem criancinhas a preços económicos e sorriem; brilham tanto que acreditam que brilham tanto como quem não aperta o cinto para ter estes luxos; brilham de créditos e créditos e afundam-se num mar de créditos procurando a impossível pérola. Sabem, os vossos olhos já não brilham.
A liberdade que vos vendem está corrupta – mas ninguém o consegue ver: há montanhas de objectos, continentes de sucata, penínsulas de inutilidades entre o sol e nós, as sombras na sombra.
E nada nos protege dos dias maus... Da palavra fora do sítio; a boca no outro lugar da mente. A eterna inadaptação ao existir. Dedicar a vida à destruição das relações com o medo. Sempre a merda do medo. A força secreta que me compele ao silêncio e à inacção. Há dias em que des... desengano ... desencontro... desenmerdo algo para dizer... noutros o fumo cala-me.
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